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Jun 12
publicado por Nuno Gouveia, às 19:04link do post | comentar

Barack Obama está muito diferente daquele candidato que vimos em 2008, que fez uma campanha extraordinária e quase isenta de erros. Defender um mandato é bem mais complicado do que atacar o que existe. A mensagem de há quatro anos era de mudança, agora é de status quo. John McCain em 2008 cometeu um grave erro no inicio da crise quando disse que "the fundamentals of our economy are strong", quando já era evidente que uma grave crise se estava a abater sobre os Estados Unidos. Na sexta-feira passada, Barack Obama teve o seu momento, ao proferir numa conferência de imprensa a frase assassina "The private sector is doing fine". Ora, esse não é o sentimento geral que os americanos têm, e com uma taxa de desemprego superior a oito por cento, ninguém poderá levar a sério isto que o Presidente disse. Mais tarde, Obama tentou corrigir o erro, ao dizer o contrário, mas já era tarde. Esta frase dominou os ataques republicanos e os debates na imprensa este fim de semana. Não sei se terá o mesmo impacto da gaffe de McCain em 2008, até porque essa foi proferida já numa altura muito próxima da eleição. Mas não deixa de ser mais um contratempo para Obama, que tem tido bastantes nas últimas semanas. 


Quando se fala sem "ponto" d+a este resultado.
Alexandre Burmester a 10 de Junho de 2012 às 20:10

Pelo que percebi era uma conferência de imprensa. Logo, sem teleponto :)

Aguardemos o momento "there you go again" desta campanha. ;-)

E porque não referir as constante gaffes do Romney e da sua campanha? Gaffes até ao nível de erros na escrita de palavras simples.
Não percebo o constante rebaixamento do Democratas e o endeusamento do Republicanos neste blog. Foram as políticas republicanas que levaram o mundo para a crise que se vive hoje em dia, foram as políticas republicanas que se meteram em duas guerras e baixaram os impostos ao mesmo tempo, não há grau suficiente de estupidez para classificar isto.
Ainda ontem foi publicado na Forbes que o Obama é o presidente desde Eisenhower que menos aumentou a despesa pública, ouve-se aqui a falar disto? claro que não.
HCarvalho a 12 de Junho de 2012 às 09:24

As gaffes que refere foram de operacionais e não do candidato. São meros apêndices desta campanha. Mas vejo que costuma ler os memos da campanha do Partido Democrata. Eu também.

Esses números que refere são enganadores, pois a Administração Obama em 3,5 anos aumentou o défice em 50%, passado de mais ou menos 10T para 15T, quando tinha prometido em 2008 reduzi-lo em 50%. Isso é o mais relevante na despesa federal.

Se acha que alguém aqui endeusa os republicanos e rebaixa os democratas, pode sempre ler outros espaços. De facto as últimas semanas foram mesmo muito más para os democratas, mas se pensa o contrário, está no seu direito.

Um problema nas discussões sobre déficits, despesa pública, austeridade, "conservadorismo fiscal", etc. é que não há uma regra clara sobre qual a métrica relevante - a despesa ou o deficit? (mesmo ontem participei numa discussão nos comentários d'O Insurgente que andava à volta disso).

Uma das implicações é que é fácil numa discussão cada lado escolher qual a variável que lhe interessa mais.

Agora acerca de gaffes - há quem diga que o Romney, em resposta a esta do Obama, terá também cometido uma, ao acusar Obama de achar que a América precisaria de mais "policias, bombeiros e professores" (aqui a gaffe terá sido ao nível dos exemplos escolhidos - a ideia era dizer "não precisamos de mais funcionários públicos", mas talvez Romney tenha escolhido as 3 categoria de funcionários públicos que a opinião pública mais gosta)

Obama utiliza um truque, ao dizer que a despesa aumentou menos do que no passado. Na verdade, esses dados pouco interessam na "big picture" que tem sido pintada pelos media, quando ele aumentou a dívida em mais de 5Trilion, devido aos défices galopantes. Este ano, com apenas oito meses, já vai em mais 800 mil milhões. Aliás, suspeito que em breve irá desistir de bater na tecla que a despesa não aumentou muito, pois esse parece-me um argumento "não vencedor". De resto, a despesa só não aumentou mais devido aos acordos que Obama fez com a maioria republicana na Câmara dos Representantes. Se ele tivesse conseguido aprovar algum dos seus orçamentos (em três anos, mesmo quando teve a maioria, não aprovou nenhum) a subida da despesa teria sido bem maior e o défice ainda maior.

Sobre as gaffes: tem havido e vai continuar a haver de ambos os lados. O problema não são as gaffes propriamente ditas, mas quais é que podem contribuir para a narrativa desta campanha. E esta última do Obama pode ser importante, como foi a de McCain há 4 anos. Romney já teve uma importante, mas que estranhamente não tem sido muito explorada por Obama, quando disse que não se importava com as pessoas pobres.

Ainda a respeito do que é mais relevante (a despesa ou o deficit), depende do contexto da discussão.

Se for uma discussão entre a posição "Esta administração tem expandido o governo federal a níveis nunca antes vistos, com o objectivo de tornar os EUA uma cópia da Europa socialista" e a posição "O governo não tem crescido nada por aí além - a despesa cresceu ao ritmo de sempre e muito desse crescimento foi para pagar subsídios de desemprego; os deficits são simplesmente o resultado da crise herdada da administração anterior, que fez reduzir as receitas fiscais (e mais as prévias reduções de impostos), logo, com a despesa a crescer ao ritmo habitual e a receita a cair, o deficit aumenta", pode-se considerar que a variável relevante é mesmo a despesa.

Ainda a respeito da reduzido aumento da despesa ser resultado do Congresso não deixar o presidente gastar mais; a relevância disso também depende do contexto - o argumento "a despesa tem crescido pouco sobre Obama" pode ser usado tanto no contexto "Obama tem sido um exemplo de prudência e responsabilidade fiscal, ao contrário do gastador Bush" como no contexto "O desemprego continua alto porque os obstrucionistas no Congresso têm bloqueado uma politica activa de estimulo à economia através de maiores despesas federais - veja-se como, no meio de uma das mais graves crises económicas, a despesa mal cresceu, quando o que precisávamos era de um novo New Deal!".

[embora este artigo da BI seja acerca de empregos públicos e não da despesa pública, é bom para evidenciar a diferença entre as duas possíveis abordagens - http://www.businessinsider.com/mitt-romney-campaign-out-of-context-attacks-obama-on-public-sector-hiring-2012-6]

Cada lado utiliza o ângulo que melhor serve a sua posição e isso é normal. Mas o que quis realçar é que neste momento não me parece aceitável para a campanha de Obama bater nessa tecla, pois o seu governo é visto como responsável pelo aumento dos 5T no défice. A sua mensagem não pode ser "baixamos o nível de crescimento da despesa" quando há uma percepção pública que os gastos são imensos e o défice tem vindo a aumentar. Terá de apresentar o seu caso de outra forma.

Eu continuo a pensar que a melhor forma de Obama vencer é "destruir" Romney na praça pública. Mas para isso terá de mandar calar Bill Clinton e outros democratas....

Nuno Gouveia a 14 de Junho de 2012 às 17:45

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Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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