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Jun 12
publicado por Nuno Gouveia, às 20:21link do post | comentar

Ao contrário do que fui lendo por aí, sempre entendi que Mitt Romney tem uma verdadeira hipótese de triunfar. As últimas semanas confirmaram esta minha asserção. Hoje foi anunciado o valor da angariação de fundos do mês de Maio e pela primeira vez Mitt Romney ultrapassou Barack Obama, conseguindo 76 milhões de dólares contra 60 do Presidente. Já no mês passado os valores foram muito semelhantes entre ambos. Um dos aspectos que sempre me pareceu incontestável é que Obama teria grande vantagem financeira sobre o seu adversário republicano. Algo que começa a parecer uma miragem. Se os números acompanharem este ritmo, não só Romney poderá possuir directamente mais dinheiro do que Obama, como poderá ultrapassar em larga medida os democratas se lhes juntarmos os valores das Super Pacs, onde os republicanos têm obtido grandes somas. Nem George Clooney ou Sarah Jessica Parker estão a salvar o Presidente nesta área. 

 

Por outro lado, este final da Primavera está a instalar nos republicanos um espírito de vitória. Ao contrário dos democratas, que ainda há poucos meses estavam convencidos da inevitabilidade da reeleição de Obama. Durante as primárias havia um sentimento entre o GOP que muito dificilmente Romney teria a capacidade para derrotar Obama. A economia mostrava sinais de recuperação, Romney passava por dificuldades para concluir as primárias com um leque de adversários muito fracos e os seus números na angariação de fundos eram banais. Ao mesmo tempo, Romney cometia erros infantis e havia um clima instalado nos media que a corrida não seria assim tão renhida como alguns analistas republicanos clamavam. As últimas semanas mudaram tudo. Romney desde que obteve a nomeação tem executado uma campanha isenta de erros, os principais ataques de Obama têm fracassado, muito com a ajuda de alguns democratas como Bill Clinton, Ed Rendell ou Cory Booker, o desemprego voltou a aumentar e para finalizar, a vitória de Scott Walker no Wisconsin. As sondagens nacionais continuam a dar uma ligeira vantagem a Obama, mas dois estados tradicionais que têm votado democrata nas últimas décadas podem estar em jogo: Wisconsin e Michigan. Se juntarmos a isso a vantagem que Romney já tem em estados que votaram Obama, como o Indiana e Carolina do Norte e a situação de empate técnico na Florida, Ohio, Iowa, Virgínia, Nevada e New Hampshire, estamos a falar numa eleição disputadíssima. 

 

Neste momento, apesar de estar à defesa, Obama ainda tem alguns trunfos para jogar. É o presidente em exercício, os modelos de previsão de resultados eleitorais continua a apontar-lhe um ligeiro favoritismo e tem um Verão todo pela frente para tentar "destruir" Mitt Romney. A imprensa continua a favorecê-lo e a geografia eleitoral permanece uma vantagem para ele. Se é verdade que estão muitos estados em jogo que ele venceu em 2008, ele ainda tem um "rumo" mais fácil para a vitória do que Mitt Romney. Mas se ainda não é tempo para Chicago estar em pânico, o clima de apreensão deve ter crescido imenso nestas últimas três semanas.

 


Tem o verão inteiro para destruir Romney ou aquecér a economia. Os pedidos de aux. desemprego cairam 10 mil.
Alem disso presidentes que apenas atacam seus oponentes (Carter, Sarkozy, Bush pai) passam a ideia de nâo ter o que defender em seus governos. Obama tem seguir Bush filho. Atacar o desafiante, mas defender as politicas de seu mandato.
Joao Felipe a 7 de Junho de 2012 às 21:44

O problema de Obama é esse. Não tem políticas para defender. As suas grandes vitórias legislativas (lei da saúde e plano de estímulos) são amplamente impopulares e a economia não para de descer. Mesmo que recupere (e não é previsível que tal aconteça), será sempre uma recuperação muito curta.

Não concordo. Se assim o fosse, ele teria uma taxa de desaprovação bastante alta. O que há é uma polarização muito grande sobre ele.
Há coisas a defender, como o socorro as montadoras e a política externa.
Joao Felipe a 7 de Junho de 2012 às 23:53

Nuno,

Concordo. De fato, parece que a vida de Obama será muito mais complicada do que a de outros presidentes em campanha de reeleição na história recente dos EUA. Por exemplo, Nixon venceu MCGovern facilmente, da mesmo forma que Reagan em relação a Mondale, e Clinton contra Dole.

Mas Obama ainda pode vencer apertado como Bush Jr contra Kerry. Mas em um cenário desses, a chance de Obama perder aumenta exponencialmente, pois a disputa se torna imprevisivel. Se um punhado de eleitores em Ohio ou Virginia acordam no dia da eleição de mau humor ou amargurados com a vida, Obama terá de voltar para Chicago.

Eu creio que Obama fez uma aposta. Desde a derrota de Carter em 80, os democratas apenas tiveram o poder quando adotaram uma estratégia centrista, moderada (para os padrões americanos) com Bill Clinton, visando o eleitor independente. Obama, por outro lado, tem recentemente se movido no sentido a agradar setores mais liberais da base do partido (vide: apoio ao casamento gay). Há certamente um cálculo poitico nesse movimento, baseado em pesquisas de opinião indicando mudanças de posturas dos eleitores, a modificação dos perfis demográficos em alguns "swing states" e mesmo "red states", inflamar a base do partido, que estava um tanto apática, a radicalização dos republicanos (já que grande parte da base do partido adversário não quer mais saber de diálogo ou entendimento) ... Resta saber se esse movimento vai dar resultado. Certamente Obama mirou no futuro, nas tendências já observáveis da sociedade americana. Porém, talvez, o futuro não chegue até novembro, e ele ainda tenha de se confrontar com a "Velha" América.

E já se falou muito na dificuldade que Romney teve para unir seu partido, contra rivais inexpressivos e com pouco financiamento. Mas, o fato é que Obama, mesmo sem nenhuma concorrência ou oponente sério entre os democratas, também teve problemas em vários estados, principalmente no Sul, e já perdeu em alguns condados.

Por exemplo, nas primárias democratas de West Virginia, Keith Russel Judd, um detento de uma penitenciária federal no Texas, conseguiu mais de 40 % dos votos disputando contra Obama. Situações semelhantes ocorreram em vários estados sulistas.

http://www.washingtonpost.com/blogs/the-fix/post/the-anti-obama-democrats/2012/05/22/gIQArS7MiU_blog.html

É claro que West Virginia e Arkansas não são importantes para a estratégia democrata. Contudo, na Carolina do Norte, onde Obama vai precisar da base democrata energizada e unida, 20 % dos eleitores nas primárias democratas escolheram a opção "uncommitted" em relação a seu candidato presidencial. Será que votarão em Obama em novembro?

Nehemias
Nehemias a 8 de Junho de 2012 às 14:03

Não se esqueçam que o dinheiro do Obama veio de uma base de cerca de 13 milhões de eleitores comuns, enquanto que o dinheiro do Romney veio dos Super PAC, ou seja do Petróleo e Wall Street. Além disso o Romney vai ter que dividir esses 76 milhões a 50% com os partido Republicano. A decisãão Cictizens United foi a pior coisa que podia ter acontecido na política americana, tirou a decisão das eleições do americano comum e colocou-as nas mãos nefastas de um grupo de bilionários. Basta ver donde surgiu essa aberração chamada Tea Party, foi criada pelos irmãos Koch, dois bilionários.
HCarvalho a 8 de Junho de 2012 às 16:04

Isso não é verdade. Este dinheiro nada tem a ver com a Super Pacs. Isso é extra. E recordo que Obama, além da Super Pac que criou, tem aínda outras muito importantes: os sindicatos e organizações liberais, que têm investido milhões em candidatos democratas, como o vão fazer novamente. Além disso, os 60M$ de Obama também têm de ser divididos com o DNC.

Além que não sei onde foi buscar os tais "13 milhões de cidadãos comuns". Neste momento contribuíram para a campanha de Obama cerca de 2 milhões de pessoas. Não conheço o número individuais de Romney, mas devem ser bem menos do que esses.

Sobre os principais contribuidores de Romney e Obama (não inclui os valores de Maio) e não tem muito a ver com o que falou.

Romney:

http://www.opensecrets.org/pres12/indus.php?cycle=2012&id=N00000286

Obama:

http://www.opensecrets.org/pres12/indus.php?cycle=2012&id=N00009638



As sondagens, nacionais ou estaduais, trazem a seguinte mensagem: nem a nível nacional, nem nos "swing-states" Obama atinge os 50%. Os seus números equivalem, grosso modo, à sua taxa de aprovação. Isto só pode significar más notícias: se ao fim de três anos e meio um eleitor não está convencido a votar no presidente, dificilmente se convencerá daqui até Novembro. E, regra geral, os indecisos dividem-se 80%/20% a favor do concorrente do presidente.
Alexandre Burmester a 9 de Junho de 2012 às 17:12

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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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