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Jun 12
publicado por Nuno Gouveia, às 18:45link do post | comentar

Barack Obama é o primeiro presidente Afro-americano. Mitt Romney deseja ser o primeiro mórmon a chegar à Casa Branca. Ambos estudaram na Universidade de Harvard, mas as semelhanças terminam aqui. Este é um dos poucos aspectos em comum destes dois homens que vão disputar o cargo político mais poderoso do mundo. Mas até aí encontramos diferenças. Mitt Romney esteve em Harvard a estudar Gestão enquanto Obama frequentou Direito. Obama é um político mais jovem, nasceu quando John F. Kennedy estava na Casa Branca e atingiu o topo da carreira política antes dos 50 anos. Com um currículo académico interessante, Obama demorou cerca de 10 anos a transformar-se total desconhecido nas ruas de Chicago até Presidente dos Estados Unidos. Mitt Romney nasceu quando as bombas da II Guerra Mundial ainda ecoavam na Europa, tendo primeiro investido na sua carreira empresarial para apenas depois se dedicar ao serviço público. As suas qualidades políticas não são inatas, como sucede com Barack Obama, mas compensa essa carência com uma dedicação e um profissionalismo que fazem dele um político eficiente. 

 

 

Mitt Romney nasceu em 1947, filho de uma família Mórmon, e herdou dos pais o gosto pela política e pela causa pública. George Romney foi um popular governador Republicano do Michigan na década de 60, um dos líderes da ala “liberal” do Partido Republicano, em contraste com a facção de Barry Goldwater. Mais tarde fez parte da Administração Nixon. A sua mãe, Lenore Romney, foi candidata ao senado pelo Partido Republicano em 1970, numa época em que poucas mulheres se aventuravam na política. Seria expectável que Romney perseguisse imediatamente os passos dos pais, mas não foi isso que sucedeu. Seguindo um conselho do seu pai, que lhe pediu para apenas se meter na política quando fosse financeiramente independente, Romney foi trabalhar para a empresa de investimentos Bain & Company mal saiu de Harvard, ajudando a fundar posteriormente a Bain Capital, ainda hoje uma das empresas de capitais de risco com mais sucesso no mundo. Só depois de ser milionário Romney abandonou a zona de conforto dos negócios e dedicou-se à política. Barack Obama nasceu 14 anos mais tarde do que Romney, em 1961 em Honolulu. Filho de pai queniano e mãe natural do Kansas, Obama teve uma infância conturbada, tendo vivido com a mãe  na Indonésia entre os 6 e os 10 anos. A partir daí regressou ao Havai para viver com a Avó, tendo estudado num dos melhores colégios de Honolulu. Mais tarde estudou Ciências Políticas e Relações Internacionais na Universidade de Colúmbia e passou a década de 80 a trabalhar em organizações sociais de Chicago. Em 1988 ingressa em Harvard, onde foi o primeiro negro a liderar a prestigiada Law Harvard Review.  Começa a dar aulas a Universidade de Direito de Chicago, mas o bichinho da política já estava impregnado nele. Em 1997 é eleito senador estadual do Illinois, nunca mais deixando a política activa. 

 

Um pouco antes, em 1994, Romney tem a sua primeira incursão na política, tentando, sem sucesso, afastar o histórico Ted Kennedy como senador do Massachusetts. Derrotado com um resultado honroso, Romney regressa ao mundo dos negócios, mas sem nunca mais deixar de vista a política. Quando em 1999 foi convidado para liderar e salvar os Jogos Olímpicos de Inverno de 2002 em Salt Lake City, Romney não hesitou e voltou a abandonar a Bain Capital, desta vez para sempre. Nesse mesmo ano foi eleito governador do Massachusetts, um dos estados mais “liberais” dos Estados Unidos. Assente na sua carreira de empresário de sucesso e no seu percurso elogiadíssimo na liderança dos Jogos Olímpicos, Romney, assumiu-se como um republicano independente e que tinha posições sociais moderadas em temas como o aborto. Com a carreira empresarial, os Olímpicos e o cargo de Governador do Massachusetts, Romney tinha conquistado finalmente a visibilidade nacional e o currículo necessário para se candidatar ao cargo mais desejado: a presidência dos Estados Unidos da América. Mas não chegou lá à primeira. 2008 era o ano de John McCain no Partido Republicano. O ano de ouro de Barack Obama, que depois de alguns anos na política do Illinois, tinha chegado a Washington em 2004 já com uma áurea de prestigio. Em 2000 Obama tinha tentado candidatar-se à Câmara dos Representantes, mas foi derrotado logo nas primárias democratas. A sua fama na chegada ao Senado deveu-se sobretudo a um eloquente momento de oratória: em Agosto de 2004 fez um notável discurso na Convenção Democrata, que apaixonou a América e deixou milhões de democratas a sonhar. Ainda mal tinha entrado no Senado em 2004 e o seu nome já era referido como potencial candidato presidencial em 2008. Foi o aconteceu, e contra todas as previsões iniciais, derrotou Hillary Clinton numas primárias muito disputadas e venceu o herói de guerra John McCain nas eleições gerais. Chega a 2012 com as cicatrizes de um mandato bastante complicado, mas em condições de ser reeleito.

 

Também nas ideias políticas são distintos. Mitt Romney, tendo começado a carreira política como centrista, desviou-se para a direita nestas duas recentes campanhas políticas. No entanto, é hoje um político aceitável para o eleitorado conservador e capaz de conquistar o centro com a sua mensagem económica. Obama iniciou-se na vida política como um “liberal” de Chicago, tendo recentrado o seu discurso após 2004. Apesar de ter sido eleito com o apoio da ala mais à esquerda do Partido Democrata, assumiu no poder políticas polémicas para a sua base, nomeadamente na segurança nacional e na política externa. Mas isso não lhe custou a popularidade na base, compensando-a com o seu plano de estímulos, com a lei da reforma da saúde e mais recentemente com uma retórica agressiva contra os ricos. Mitt Romney preconiza uma reforma profunda na América, com  restruturação do papel do Estado Federal na vida dos cidadãos; Obama deseja preservá-lo, através de um estado intervencionista na economia e na sociedade. Tendo personalidades distintas, há algo, no entanto, que os aproxima: ambos são cerebrais e pouco emotivos no contacto com o povo americano. Obama ainda dissimula isso com a sua retórica mais emotiva e com o seu carisma, mas é indisfarçável que ambos são calculistas, frios e metódicos. Em 2008 muitos, incluindo eu, perspectivaram que este seria o confronto de 2012. Mas o que não era expectável na época é que seria uma disputa renhida e com amplas possibilidades de vitória para Mitt Romney.  

 

A escolha da América será feita entre estes dois homens tão díspares e com políticas radicalmente contrárias. A democracia fica a ganhar quando assim sucede. 

 


Excelente artigo.
Mas ao contrário de você, em 2008 eu já esperava uma disputa acirrada para 2012. A crise que lhe ajudou a se eleger também lhe faria danos.
Me contento em ver que mesmo com uma situação economica desconfortavel, ele continua competitivo. O que não ocorreu a outros presidentes.
O melhor caminho para ele é olhar nos olhos dos EUA, sendo humilde para dizer que não está do jeito que todos gostariam, mas que que ainda é melhor opção que um retorno as políticas do GOP
Joao Felipe a 2 de Junho de 2012 às 23:09

Se a situação económica não melhorar até Setembro/Outubro, Obama terá de "destruir" Romney na opinião pública. Não poderá ganhar culpando o antecessor ou pedindo mais tempo para as suas políticas funcionar. E muito menos defender o seu mandato. Terá de tornar Romney inelegível.

Não digo que vá ser o caso, nem me parece possível sequer. Mas em 1980 Jimmy Carter foi competitivo até quase ao final da campanha. Apesar de ter sido derrotado num verdadeiro landslide, uma semana antes as sondagens apontavam para um empate técnico.

Cumprimentos,

Acho que Romney não deseja uma reforma, mas sim um retorno. Retorno as políticas da era Bush.
Já Obama deseja manter... a mudança!
Joao felipe a 3 de Junho de 2012 às 00:19

Gostei do artigo. Fazem falta análises com esta profundidade, seja neste seja noutros assuntos. Parabéns ao autor.
No geral concordo, só não concordo que Obama seja pouco emotivo no contacto com o povo americano:
- lembro que numa certa ocasião entrou, para pesadelo do staff de segurança, num estabelecimento de fast food e foi ele pedir directamente os hamburgers ao balcao;
- há agora uma fotografia a correr mundo tirada pelo nosso Peter Souza em que ele tá curvado e permitiu que um rapaz tocasse o seu cabelo, já que o rapaz desconfiava do cabelo.
- etc; etc.
é claro que não é isto que vai definir o vencedor, mas é um aspecto que diferencia os dois candidatos
João Castro a 3 de Junho de 2012 às 11:55

Obrigado. Eu penso que essas imagens são um pouco fabricadas pelas estruturas de comunicação dos políticos. Romney também tem photo ops dessas, mas não me convencem.

Um abraço.

Carter era impopular, sempre esteve na casa dos 40%. O que o tornava competitivo era a desconfiança do eleitor sobre Reagan.
Já hoje Obama é polarizador. oscila entre 45-50% mesmo com a economia desfavorável. E não me parece que ela vá piorar. O pior que pode ocorrer é uma estagnação. Sua situação é mais parecida com a de Bush filho.
Joao Felipe a 3 de Junho de 2012 às 19:53

Nuno, se Angus King conquistar (como parece) o senado de Maine, com qual partido você acha que ele fará caucus?
O RealClearPolitics diz que será o Democrata. Mas tenho dúvidas, principalmente se der 50 a 49 para o GOP.
Joao felipe a 3 de Junho de 2012 às 20:02

Não conheço muito bem o senador, parece que ele é conservador económico e liberal em termos sociais. As indicações são de facto que ele alinhará pelos democratas, mas nunca se sabe. Diria que ambos os partidos vão tentar oferecer-lhe o máximo que puderem...

O melhor para os democratas seria desistir da condidatura própria e apoiar King, antes que o GOP o faça antes. Aliás, essa vaga era de uma senadora republicana que desistiu de disputar um novo mandato em protesto contra o radicalismo que tomou conta do partido.
Joao Felipe a 3 de Junho de 2012 às 20:59

Mitt Romney quer ser o braço do profeta nos estados, é a primeira vez que um movimento fundamentalista e sectário, na história da América consegue furar a cintura protectora do bible belt christão e protestante e impor um presidente dessa seita

é um pouco diferente de ser um presidente oriundo da maçonaria anglo-sax ou dos pope-pets

é nehemiah scudder em ascenção o fundamentalista que fará à américa o que hitler poderia ter feito à alemanha se tivesse mais fé....

the First Prophet was Nehemiah Scudder, a backwoods preacher turned President (elected in 2012), then dictator (no elections were held in 2016 or later).

os mais poderosos weirdo's da américa como muitos lhes chamaram

claro que isto é ficcional e a coincidência de datas apenas isso

de resto só se a crise económica se agravar seria eleito

e o poder económico dos morons mormons é muito ma nã é assis tante

e a submissão ao profeta e seus apóstolos
não é um mero problema folklórico
Mitttttt representa algo muy peor que a lei seca

em condições de crise como as que se avizinham em 2 mandatos de um mormão....fazem-se até 3
resumindo a opção religiosa do dito a 3 de Junho de 2012 às 23:14

é assis a modos que um pouco matrafoneiro
essa do bichinho estar impregnado nele a 4 de Junho de 2012 às 00:47

"Mitt Romney esteve em Harvard a estudar Gestão enquanto Obama frequentou Direito. "

Só um ponto um bocado picuinhas (e que só não é mais picuinhas porque entroca no titulo do post) - creio que Romney estudou tanto Gestão como Direito em Harvard.
Miguel Madeira a 4 de Junho de 2012 às 10:24

Tem razão. Mitt Romney tem um Joint Juris Doctor e um MBA atribuído pelas duas famosas escolas de Harvard. Não é picuinhas não :)

No entanto, e até pelo percurso profissional de ambos, penso que esse facto não "estraga" o artigo.

Obrigado Miguel.

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Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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