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Mar 12
publicado por José Gomes André, às 00:22link do post | comentar

1. Noite feliz para Santorum. Pelas duas vitórias (Alabama e Mississípi), mas sobretudo devido ao "golpe de misericórdia" que desferiu sobre Gingrich na luta pela "alternativa conservadora". Este último - cuja campanha ficará nos anais como uma das mais caóticas e mitómanas de sempre - perdeu qualquer legitimidade para se apresentar como candidato credível. Apenas duas vitórias em vinte e nove contendas; resultados miseráveis em Estados decisivos (Ohio, Michigan, Florida); incapacidade para se afirmar até em território favorável (o "Sul", onde seria supostamente favorito). A questão essencial é saber até onde a arrogância de Gingrich o levará: a uma desistência rápida (para vantagem de Santorum) ou ao prolongamento da agonia (para vantagem do seu arqui-inimigo, Romney).

 

2. Pese embora o furor mediático em torno de Santorum, creio que Romney não teve um dia desastroso. Em termos percentuais ficou próximo dos seus adversários, e com os triunfos no Hawai e Samoa Americana, acabou por conquistar praticamente o mesmo número de delegados de Santorum (as variações dependem do método de contagem). No Sul profundo, com 70% dos eleitores a declararem-se "conservadores ou muito conservadores", e com uma elevada percentagem de evangélicos, não se podia esperar muito mais.

 

3. Continuo a achar que, paulatinamente, Romney vai alicerçando a sua (inevitável) vitória. Triunfou em Estados-chave (Florida, Ohio, Michigan), tem melhor organização, bate largamente os adversários no que respeita à "electability" e parte à frente nas sondagens no Illinois, o próximo Estado eleitoralmente importante a ir a votos (20 de Março, 54 delegados em disputa). Como pode Santorum baralhar as contas? Com quatro factores essenciais: convencer Gingrich a abdicar da corrida quanto antes; obter novas e abastadas fontes de financiamento; impor a Romney uma surpreendente derrota num Estado muito relevante (Illinois ou Nova Iorque, por exemplo); alargar a sua base de apoio para além dos "social conservatives". Não vai ser fácil.


Uma coisa que eu tenho me questionado é até ponto, considerando as próximas primárias, a presença de Gingrich realmente prejudica Santorum.

O Nate Silver apresentou este ponto faz algum tempo:

http://fivethirtyeight.blogs.nytimes.com/2012/03/08/how-would-santorum-do-without-gingrich/

Ele considera dois elementos que muitas análises tem se esquecido:

1) A natureza proporcional da (grande) maioria das primárias. As únicas eleições puramente "winner-take-all" a partir de agora são as de Utah e New Jersey.
2) Não se pode assumir que todos os eleitores de Gingrich se transfeririam para Santorum. Silver apresenta várias pesquisas do PPP para estados como Georgia, Tennesse, e Ohio mostrando que 60 % dos eleitores de Gingrich optariam por Santorum, mas cerca de 30 % escolheriam Romney.

Ele utiliza esses parametros para simular o desempenho passado dos candidatos, sem Gingrich. O resultado é que Romney teria ganho em todos os estados que já ganhou, com excessão de Ohio e Alasca. Em compensação, Romney teria perdido de muito menos na Georgia. As contagem de delegados permaneceria, praticamente, a mesma.

E nas próximas primárias, temos casos onde claramente, a "divisão" conservadora é boa para Santorum/Gingrich. No Texas, segundo o Rasmussen, Romney lidera, e teria 32 % dos votos com Gingrich na disputa. Sem Gingrich, Romney perde a liderança, mas fica com 43 % (contra 45 % de Santorum). Como a divisão de delegados lá é completamente proporcional, no primeiro caso Romney poderia até ganhar, e levaria cerca de 50 delegados. No segundo caso ele certamente perderia, mas obteria quase 70.

O Scott Conroy defende uma tese parecida:
http://www.realclearpolitics.com/articles/2012/03/15/how_gingrichs_candidacy_could_help_santorum__113488.html

Nehemias
Nehemias a 15 de Março de 2012 às 17:02

Por outro lado, sem Gingrich este post [http://eraumaveznaamerica.blogs.sapo.pt/234747.html], e provavelmente muitos artigos em posts e sites nos EUA, teria tido como título "A noite de Santorum", o que por sua vez influenciaria a precepção pública sobre a força e "eleitabilidade" (esta palavra existe?) dos várias candidatos, o que por sua vez iria influenciar as futuras votações.

Também poderiamos dizer que provavelmente a campanha de Santorum tem dois objectivos (ou dois e meio):

a) Que Santorum tenha mais delegados que Romney

b) Que Santorum+Gingrich tenham mais delegados que Romney (e, ide preferência, que Romney+Paul)

Se se calhar há alguma tensão entre os objectivos a) e b) (uma desistÊncia de Gingrinch torna a) mais fácil e b) mais dificil)

Eu penso que tem havido da parte da comunicação social americana algum enviesamento no tratamento destas primárias, especialmente no que concerne às possibilidades de Romney não ser o nomeado. O que aliás já tinha acontecido com Obama-Hillary há quatro anos, quando desde o mês de Fevereiro se percebeu que seria quase impossível que Obama não fosse o nomeado, dada a matemática dos delegados. Eu percebo, porque isso interessa à arena mediática.

As contas são simples e conto escrever um post sobre isso. Mas em linhas gerais: Romney conquistou até ao momento 53% dos delegados. Para chegar ao numero magico precisa apenas de ter 47% dos delegados até ao final. Ainda faltam votar grandes estados como California e Nova Iorque, onde deverá vencer. O Texas, outro grande estado, é diferente e os votos deverão ser bastante divididos. A Pensilvânia é o grande estado que deverá cair para Santorum . Os estados WTA (li na CNN que são estes:New Jersey, DC, Puerto Rico e Utah) perto de 130 delegados, deverão ser todos ganhos por Romney.

Santorum precisariam de vencer 65% dos delegados em falta. Missão impossivel.

Portanto, podem acontecer dois cenário. O mais provavel: Romney conquista a nomeação o mais tardar em Junho. Ou fica muito perto do número, e apenas é confirmado na segunda votação da Convenção. Outro cenário parece-me ter uma hipótese de sucesso de uns 10%.

E atenção: as primárias até ao fim do mês de Abril, excepção Pensilvania e Lousiana, são todas favoráveis a Romney (em teoria, pelo resultados eleitorais até ao momento):
Costa Leste: DC, Maryland, Conecticut, Delaware, New York, Rhode Island
Midwest: (mt parecidos com Michigan e Ohio) Illinois e Wisconsin.
Island: Puerto Rico

Um abraço aos dois
Nuno Gouveia a 16 de Março de 2012 às 12:11

"Elegibilidade", caro Miguel Madeira

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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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