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Mar 12
publicado por Alexandre Burmester, às 23:44link do post | comentar

 

 

 

A questão nuclear iraniana tem sido um tema constante da actualidade. Ao contrário do que a "narrativa" europeia tende a relatar, não se trata, diga-se, apenas de uma questão envolvendo Israel, o Irão e os Estados Unidos, essencialmente porque um Irão nuclearmente armado seria muito mais depressa uma ameaça para a Europa que para os E.U.A. Mas deixando de parte esse lado da questão, a verdade é que se trata de um tema susceptível de afectar seriamente a campanha presidencial americana.

 

Segundo o Sunday Times de hoje (sem link, apenas para assinantes), aquando do recente encontro entre o Primeiro-Ministro israelita,  Benjamin Netanyahu, e o Presidente Barack Obama, os israelitas terão condescendido em adiarem aquilo que parecia iminente - um ataque israelita às instalações nucleares iranianas nesta Primavera - para, pelo menos, o mês de Setembro. Esta data de Setembro, continuaria a ser demasiado incómoda para Obama, que pretenderia obter dos israelitas uma garantia de que não atacariam o Irão até depois das eleições presidenciais americanas, dando, em contrapartida, uma garantia de que os E.U.A. nunca permitiriam um Irão nuclear.

 

Mas o problema, do ponto de vista da campanha de Obama, é que o governo israelita não confia na actual Administração americana, e teme que, se deixar passar as eleições de Novembro, esta se torne mais anti-israelita do que aquilo que os israelitas já consideram que ela actualmente é.

 

 

 O deflagrar de uma grave crise internacional mesmo antes das eleições não seria, à partida,  um revés para o Presidente, porque nessas ocasiões a opinião pública tende a apoiar o ocupante da Casa Branca. Mas este caso reveste-se de aspectos particulares: logo à partida, uma crise na região do Golfo Pérsico faria subir o preço do petróleo e, consequentemente, da gasolina, precioso líquido de cujo preço os americanos já se queixam amargamente nos dias que passam. Depois, a constante insistência da Administração Obama na via diplomática nesta questão das armas nucleares iranianas seria vista como tendo sido um fracasso.

 

Como disse o comentador conservador e antigo conselheiro de Bill Clinton (e, provavelmente, seu "salvador") Dick Morris, num recente comentário, Benjamin Netanyahu tem nas suas mãos a chave das eleições americanas de Novembro e, no fundo, ele sabe, ou supõe, que uma Administração Republicana lhe seria mais favorável, além de temer a atitude de uma Administração Obama reeleita face a Israel.

 

Este caso faz recordar o formidável jogo de xadrez e poker mesmo antes das eleições de 1968. Cinco dias antes das mesmas, o Presidente Lyndon Johnson, naquilo que muitos interpretaram como uma tentativa de última hora de dar um impulso ao candidato democrático, o seu Vice-Presidente Hubert Humphrey, anunciou a suspensão dos bombardeamentos ao Vietname do Norte, no âmbito da Guerra do Vietname. A campanha do candidato republicano, o antigo Vice-Presidente Richard Nixon, obviamente entrou em pânico, mas rapidamente se recompôs e, através de canais secretos, conseguiu convencer o presidente do Vietname do Sul a rejeitar os termos negociais propostos por Johnson, garantindo-lhe que lhe conseguiria melhor uma vez eleita. O presidente vietnamita acedeu e assim minorou o efeito de mais esta "October Surprise".

 

Mantenhamo-nos atentos: nem o xadrez, nem o poker, passaram de moda. 

 

 

 


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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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