08
Fev 12
publicado por José Gomes André, às 16:20link do post | comentar

1. Rick Santorum obteve vitórias no Missouri, Minnesota e Colorado, numa noite triunfal da sua candidatura. Beneficiando da derrocada de Gingrich (cujo estilo conflituoso alienou decisivamente o eleitorado), Santorum concentrou o voto da ala conservadora do GOP, superando Romney em dois Estados ganhos por este em 2008 (Minnesota e Colorado). Baralhou as contas no que toca ao posto de "alternativa-a-Romney", mas a sua candidatura tem fragilidades evidentes, no que toca a fundos, organização e sobretudo mensagem política - demasiado focada nos "temas sociais" (casamento gay, aborto, etc.) numa eleição previsivelmente dominada pela economia, e que pouco apela ao eleitorado moderado.

 

2. Romney tem motivos para estar preocupado. Os resultados de ontem, aliados ao menor entusiasmo dos eleitores face a 2008, mostram uma renitência - se não mesmo desagrado - da base Republicana relativamente ao "grande favorito". As "exit polls" revelam uma constante preferência dos conservadores, do "Tea Party" e dos evangélicos por outros candidatos; os "think tanks" Republicanos olham-no com desdém e nem o facto de as Primárias de ontem terem pouco significado "prático" (uma vez que a atribuição de delegados era residual), não há como esconder: os eleitores mais fiéis do Partido Republicano não estão convencidos da "inevitabilidade" chamada Romney

 

3. Por que razão insistimos então que Romney é o grande favorito? Porque tem a melhor organização, mais dinheiro, mais apoios institucionais. Porque as sondagens nacionais mostram sistematicamente que é ele o mais difícil opositor de Obama. Porque nos Estados mais populosos (com mais delegados para distribuir) a base conservadora é menos relevante que o eleitorado moderado. Porque os adversários não mostram consistência para serem uma verdadeira alternativa.

 

4. Quem está a beneficiar com estas indefinições e fragilidades? O Presidente Obama, que vem subindo nas sondagens nacionais (seja quem for o adversário nomeado), mostrando maior popularidade em Estados-chave (em sondagens recentes feitas na Florida, Virgínia e Missouri) e crescendo nos "mercados electrónicos" (como o Intrade, onde a sua probabilidade de reeleição subiu de 53 para 61% em três semanas).


1 - Os "temas sociais" parecem ter ganho força nos últimos dias:

http://www.nytimes.com/2012/02/08/us/marriage-ban-violates-constitution-court-rules.html

http://www.businessinsider.com/chris-matthews-calls-obamas-war-against-the-catholic-church-frightening-2012-2

2 - A atribuição de delegados seria assim tão residual? Creio que o Minnesota e o Colorado são o 2º e o 3º estado com mais delegados dos que votaram até agora (e, em conjunto, penso que fizeram da noite de ontem a noite em que se escolheram mais delegados). Sim, tecnicamente o que se elegeu foram delegados que ainda irão eleger os delegados, mas penso fazer sentido o que Robert Stacy McCain escreve:

http://theothermccain.com/2012/02/08/santorum-surge-returns-wins-missouri-minnesota-close-in-colorado/

"if a precinct caucus votes 45-27 for Santorum over Romney (i.e., the typical Minnesota precinct), do we suppose that this caucus will then send a slate of Romney delegates to the next phase of the state party nominating process who will vote for somebody else besides Santorum? Or should we, as I suggest we should, assume that the delegates chosen at the precinct level will eventually vote at the state level to send delegates to the national convention in roughly the same proportion as the preference expressed in the precinct votes?"

3 - Penso que os estados com mais delegados são California, Texas, Nova York, Georgia, Pensilvania e Illinois. Se tirarmos Nova York, os outros serão assim tão "moderados" como tudo isso? (muitos são, globalmente, pouco ou nada conservadores, mas nalguns desses creio que os republicanos locais são tendencialmente conservadores, mesmo que o estado não o seja)

Miguel Madeira a 8 de Fevereiro de 2012 às 22:19

Já agora, toda a discussão à volta do novo livro de Charles Murray, Coming Apart, parece também uma tentativa de re-acender os "social issues" como tema de discussão política (ainda que suspeito que só uma elite irá ligar muito a isso).

Para quem esteja por fora do assunto, dois links sobre o livro (um conservador, outro "liberal"):

http://www.nytimes.com/2012/01/31/opinion/brooks-the-great-divorce.html

http://krugman.blogs.nytimes.com/2012/02/09/a-strange-form-of-social-collapse/
Miguel Madeira a 9 de Fevereiro de 2012 às 14:32

Obrigado pelo comentário. Embora concordo com muita coisa do que disse, note-se:

1) Os temas sociais podem até ser relevantes nos "media" e contar para a base mais fervorosa do GOP, mas de modo algum sobreporão a "questão económica", nem serão determinantes como em 2000, por ex.

2) Com distribuição proporcional no CO, Santorum acabou por ganhar mais 4 delegados que Romney. E no MN ainda não houve distribuição real, podendo a mesma ser decidida numa fase em que já há "vencedor anunciado". Até pode suceder que Romney nessa altura fique com mais delegados do que a sua votação previa. E no MO não houve delegados em jogo. Pelo que, por ora, a noite de 3ª feira levou a que Santorum recuperasse cerca de 10 delegados em relação a Romney. Tv "residual" fosse um exagero, mas o que são estes 10 delegados em comparação com a vitória na FL, por ex?

3) À excepção da Geórgia, Romney é favorito nos Estados nomeados, onde votam muitos moderados (por comparação com a base Republicana). Veja-se o caso da Florida. Além disso, tem mais dinheiro para concorrer em Estados grandes. E só a CA e NY valem juntos mais de 200 delegados, sendo que pelo sistema de atribuição, Romney tem possibilidade de levar 3/4 do número total.

Dito isto, claro que Santorum ainda tem algumas hipóteses...

Abraço!

José Gomes,

Muito boa avaliação.
Sobre Romney, há um ponto interessante, em minha opinião; nas primárias de 2008 Romney era um candidato relativamente conservador (tanto é que o próprio Santorum apoiou Romney naquela época). O "papel" de moderado era exercido por John McCain.

Isso, ainda em minha opinião, ajuda a explicar a razão de Romney ter ganho em 2012 em estados, em que McCain foi vitorioso (New Hampshire e Florida), e perdido em estados mais conservadores, como Colorado e Minnesota, que lhe "pertenciam" em 2008.

Parece que existe também um elemento regional na disputa. Gingrich foi muito mal em Iowa e New Hampshire, mas se recuperou no sul, e sofre muito agora que a campanha se deslocou daquela região. Paul fez boas campanhas em New Hampshire e Minnesota, e ainda pode ganhar em Maine. No entanto, sua candidatura foi desprezada pelos republicanos do sul e do meio-oeste. Após Iowa, Santorum morreu e foi sepultado, ressucitando quando a campanha retornou aos estados do meio leste e meio oeste. Assim, uma das razões pelas quais Romney deve ser vitorioso é simplesmente pelo fato de ter muito mais recursos, podendo concorrer e adaptar sua campanha para cada novo cenário, em todas as partes dos EUA.

Miguel Madeira,

Se a candidatura de Gingrich sobreviver até lá, creio que é provável que ganhe no Texas e Georgia. Quanto aos outros grandes estados, me parece que, California e Illinois favoreciam Romney. Mas são apenas palpites (em todo caso, em 2010, os republicanos da Califórnia escolheram Meg Whitmann para concorrer ao governo do estado , cujo perfil é muito semelhante ao Romney, e que apoiou Romney em 2008).

Contudo, estados grandes favorecem Romney pelo fato de ser necessário muito mais dinheiro para concorrer competitivamente. Em um estado como a Califórnia, se for necessário, Romney simplesmente utilizará seus recursos financeiros, gastando três ou quatro vezes mais que seus adversários, como fez na Florida.

Nehemias a 9 de Fevereiro de 2012 às 13:09

Obrigado pelo comentário :)

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Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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