06
Jan 12
publicado por Alexandre Burmester, às 11:46link do post | comentar

 

Estamos a poucos dias das primárias do New Hampshire, e portanto nada melhor que esta altura para um pequeno apontamento histórico, acerca da mesma eleição mas em 1968.

 

O ano de 1968 foi um ano marcante, trágico e surpreendente na política e sociedade americanas, com os assassínios de Martin Luther King e de Robert Kennedy, a desistência da candidatura do Presidente Johnson, as manifestações contra a Guerra do Vietname e, finalmente, a vitória de Richard Nixon nas eleições presidenciais.

 

As primárias no New Hampshire desse ano tiveram um importante contributo para o panorama eleitoral.

 

Do lado republicano, havia um candidato que tinha forçosamente de demonstrar a sua capacidade de ganhar uma disputa eleitoral: o antigo Vice-Presidente Richard Nixon. Embora fosse a maior figura eleitoral do partido, Nixon estava prejudicado pelas suas derrotas nas presidenciais de 1960 (mesmo por apenas 0,1% dos votos...) e na eleição para governador da Califórnia em 1962. Numa altura em que muitos delegados às convenções partidárias não eram ainda escolhidos em primárias, Nixon tinha, mesmo assim, de disputar - e vencer - esta primária, o que acabaria por conseguir, com um impressionante total de 78% dos votos, contra 11% do Governador de Nova Iorque, Nelson Rockefeller. Estava lançada aquela que viria a ser campanha vencedora desse ano.

 

Do lado democrático as coisas apresentavam-se mais pacíficas. Ao fim e ao cabo, os democratas ocupavam a Casa Branca, e não é de "bom tom" alguém candidatar-se contra um presidente do seu próprio partido. Mas assim não pensou o Senador Eugene McCarthy do Minnesota, o qual, baseando-se essencialmente numa plataforma anti-Guerra do Vietname, entrou na campanha neste estado e, a 12 de Março (as primárias começavam mais tarde naquele tempo), conseguiu uns fantásticos 42% dos votos, contra os 49% de Lyndon Johnson.

 

 

Mas a história não acabaria aqui: a 16 de Março, sentindo a fraqueza de Johnson, Robert Kennedy, à altura senador por Nova Iorque, depois de ter servido nas Administrações de seu irmão e na de Johnson, declarou a sua candidatura. Isto causou uma profunda consternação em muitos meios democráticos, desde os afectos a McCarthy aos mais próximos de Johnson. O comentador liberal (em termos americanos, nunca é de mais frizar), Murray Kempton, próximo da candidatura de McCarthy, traçou até esta analogia: "Kennedy fez o papel de um homem que vem a galopar pelos montes abaixo após a batalha, disparando sobre os feridos".

 

Perante o cenário que se desenrolava na campanha do seu partido, e invocando as dificuldades externas e internas da América, a 31 de Março o Presidente Johnson anunciou que retirava a sua candidatura.

 

New Hampshire 1968 fez história, de facto mas, para pôr um pouco de perspectiva em tudo isto, deve referir-se que o candidato do Partido Democrático acabou por ser o Vice-Presidente Hubert Humphrey. E mesmo que o infeliz Robert Kennedy não tivesse sido assassinado na noite da primária da Califórnia, é muito difícil ver, face à correlação de forças, como poderia ele ter conseguido a nomeação do seu partido.

 

 

Fotos: ao alto: o Senador Eugene McCarthy; ao centro o Senador Robert Kennedy


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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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