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Jul 17
publicado por Nuno Gouveia, às 22:24link do post | comentar | ver comentários (1)

Sempre entendi a política norte-americana com algum distanciamento, embora tenha maior proximidade histórica e ideológica com o Partido Republicano. Apesar de divergências significativas com a agenda do GOP (sobretudo nas questões sociais e culturais), sempre tive admiração pelo partido de Ronald Reagan e Abraham Lincoln. Este distanciamento não me impede de ter vários Presidentes democratas entre o meu leque de preferidos, como Harry Truman ou Lyndon Johnson (por diversos motivos que não interessam para este artigo). Daí que a eleição de Donald Trump me ter causado uma profunda consternação pelo estado do Partido Republicano e por aquilo que este se transformou. É preciso dizer que isto não começou com Trump: nos últimos anos franjas radicais da direita americana foram ganhando peso no GOP, até que um oportunista, sem ideologia bem definida, o tomasse de assalto com a cumplicidade dos radicais e omissão do sectores tradicionais.

Estes seis meses só terão surpreendido aqueles (como eu) que até  esperavam que o Presidente Trump fosse bastante diferente do candidato. Apesar de escolhas regulares para alguns cargos, como no Pentágono, na ONU ou no Departamento de Estado, os sinais estavam lá todos durante aquela longa campanha que se iniciou em Junho de 2015: a ele tudo faltava para ser Presidente dos Estados Unidos: falta de integridade, de conhecimento, de experiência política e de coerência ideológica. Sim, passados apenas seis meses, tudo isto está mais que comprovado, com consequências nefastas para os Estados Unidos, para as instituições internacionais e para a estabilidade mundial. Com excepção de uma nomeação de um juiz para o Supremo Tribunal, que sucessos podemos apontar à Administração Trump? A resposta é simples: zero. O que temos assistido é a um desenrolar de polémicas, afrontamentos, fracassos ou embaraços causados pelo incrível amadorismo de uma Casa Branca que não estava preparada para governar o país conhecido anteriormente como líder do Mundo livre.

Segundo a média de sondagens do site Real Clear Politics, Trump tem hoje uma taxa de impopularidade de 54%, a mais elevada de sempre num Presidente com apenas seis meses de mandato. Certamente haverá muitos aspetos que poderia destacar da Presidência Trump, mas apontaria para três: amadorismo; nacionalismo; isolacionismo.

A forma como a Casa Branca tem lidado com alguns dossiês tem evidenciado um amadorismo que se explica pela inexperiência política dos seus membros. Era recorrente os Presidentes preencherem lugares-chave com um misto de homens de confiança e veteranos de anteriores administrações. Foi assim com todos os anteriores Presidentes, mas não com Trump: em vez de convidar alguns elementos de anteriores administrações, como fez Obama ou W. Bush, por exemplo, Trump convidou um bando de neófitos na gestão política e quase ninguém com experiência em cargos políticos executivos. O resultado está à vista e episódios como a proibição da entrada de cidadãos de certos países islâmicos (entretanto revista), as constantes fugas de informação da Casa Branca, as tentativas de encobrimento dos contactos com a Rússia, a demissão de Michael Flynn, são apenas alguns casos. Por exemplo, neste momento, a administração Obama apenas nomeou 197 pessoas para cargos públicos que precisam de passar no Senado, sendo que apenas 46 foram aprovados. Estes números têm paralisado parte do Estado e comparam muito negativamente com as anteriores administrações. Por exemplo, Obama neste período já tinha nomeado 323 e confirmado 183. Este amadorismo que temos sentido sente-se também na fraca capacidade para liderar uma agenda transformadora no país, sendo que apesar da grande maioria que o GOP tem nas duas câmaras, ainda não conseguiram aprovar nenhum pacote legislativo significativo: a reforma fiscal e a reforma da saúde estão paradas. Mas o maior amador é o próprio Donald Trump, que tem cometido erros e gafes que embaraçariam um outro qualquer Presidente. 

A vertente nacionalista do discurso republicano contrasta também com o passado do partido: a defesa do excepcionalismo americano tem sido uma imagem de marca do GOP moderno, mas os elementos nacionalistas e radicais sempre estiveram afastados do discurso político dos seus líderes. Bastará recordar o que diziam Ronald Reagan, os Bush ou mais recentemente John McCain e Mitt Romney. À retórica republicana sempre esteve subjacente aos valores da liberdade, da democracia e da tolerância. Com Trump, a retórica (e a prática) alterou-se substancialmente: já não há uma defesa do excepcionalismo americano, mas sim do poder, da força e do nacionalismo americano. Não é por acaso que os sectores radicais e da extrema-direita americanos se aproximaram do actual GOP, com consequências imprevisíveis para o futuro, enquanto os sectores mais centristas se contorcem para não quebrar de vez com Trump, apesar das críticas que vão lançando. Ainda recentemente, os senadores Marco Rubio, John McCain e Lindsay Graham foram os mais violentos nas críticas que lançaram ao encontro entre Trump e Putin. Como observamos recentemente na viagem de Trump à Europa, os Estados Unidos têm hoje mais semelhanças com países e partidos liderados por nacionalistas, como a Polónia ou a Rússia ou as lideranças do UKIP britânico ou a Frente Nacional da Senhora Le Pen, do que com as democracias liberais e os seus antigos aliados. As palavras democracia e liberdade quase desapareceram do discurso político da atual administração, o que contrasta bastante com o passado recente. E aqui, a retórica diz muito.  

Por outro lado, esta aproximação de Trump a movimentos nacionalistas e não democráticos também nos leva ao terceiro sintoma grave dos últimos seis meses: o isolacionismo dos Estados Unidos de Trump, que já não pode ser considerado o líder do mundo livre, como acontecia desde a II guerra mundial. Num mundo em rápidas alterações, a estabilidade e segurança providenciada pelos americanos terminou com Trump. É evidente que já havia sinais dessa degradação do papel americano no mundo, mas nunca como hoje se viu os Estados Unidos tão isolados nas relações internacionais: sejam em questões com as alterações climáticas, o comércio livre ou até mesmo na NATO. Hoje já não são considerados pelos aliados como um parceiro confiável. Trump tem uma liderança que tem hostilizado os aliados tradicionais (caso do Canadá, da França, da Austrália ou da Alemanha), ao contrário de países tradicionalmente adversários, como é o caso da Rússia ou da China. A estratégia de Trump parece ser construir uma ordem mundial baseada em relações e acordos bilaterais, esquecendo as relações multilaterais que foram construídas nos últimos 70 anos. É preciso regressar aos anos 20 do século passado para encontrarmos uns Estados Unidos tão isolados do resto mundo. Nem nos anos da intervenção do Iraque assistimos ao isolamento visto recentemente na cimeira do G20. Em 2002/2003, e com divisões acentuadas sobre a intervenção do Iraque, Bush manteve ao seu lado diversos aliados, como o Reino Unido, a Espanha, os países de Leste ou a Austrália. Se Bush, talvez o anterior presidente menos consensual das últimas décadas, dividia os aliados, Trump tem conseguido unir os seus aliados: mas contra os EUA. Esta ausência de liderança internacional pode estar a ter o condão aparente de unir os responsáveis europeus, mas as brechas que se começam a sentir (como na Polónia ou na Hungria) podem a curto-médio prazo constituir uma preocupação para nós, europeus. Mas mais preocupante do que isso, até é a total ausência de pensamento estratégico nas relações entre estados em plataformas multilaterais, o que poderá redundar em acordos bilaterais entre potência (como a Rússia ou a China) que venham a prejudicar países terceiros e antigos aliados, como acontecia na era das grandes potências anteriores à Segunda Guerra Mundial. Trump pode vir a ser o catalisador do fim daquilo a que antes chamávamos mundo livre ou o Ocidente, dando lugar a uma nova ordem internacional mais perigosa, mais instável e mais insegura.


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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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