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Abr 17
publicado por Nuno Gouveia, às 13:52link do post | comentar

Os primeiros 100 dias de Trump não desiludiram: depois de uma campanha caótica que o levou à Casa Branca, a sua governação manteve o ritmo alucinante de controvérsias. Bem sei que quando falamos em 100 dias, estes parecem uma eternidade dado o número de situações que já ocorreram na Administração Trump. Uma demissão de um Conselheiro Nacional, investigações sobre uma perigosa relação com a inimiga Rússia de Putin, uma fracassada tentativa de derrubar a Obamacare ou a também falhada ordem executiva de impedir cidadãos de sete países islâmicos de entrarem nos Estados Unidos. Ao lado de tantos fracassos e polémicas, Trump também coleccionou algumas vitórias, como a nomeação de Neil Gorshuch para o Supremo Tribunal ou o bombardeamento da Síria, que recebeu apoios de todos os quadrantes políticos norte-americanos. Estes primeiros dias foram medíocres mas há motivos para esperar que as coisas melhorem.

O que não surpreendeu em Trump foi a sua profunda inabilidade para lidar com assuntos que desconhece, a sua ignorância sobre a diplomacia e a política internacional ou a sua falta de preparação para o cargo. Nada disto foi novidade. Tal como também não surpreendeu a agressividade que a ala nacionalista da Casa Branca, liderada por Steve Bannon, incutiu nos primeiros dias da Administração, levando a fracassos como a proibição da entrada a islâmicos de alguns países ou diversas situações de guerrilha interna que vieram cá para fora. Mas se afirmar que a Administração Trump pouco concretizou nestes primeiros 100 dias significa muito pouco (normalmente existem medidas simbólicas e pouco mais), o mais significativo deste período foi mesmo o amadorismo que Trump e a sua equipa demonstrou, colocando em evidência tudo aquilo que muitos sempre disseram.

Mas se me parece justo dizer que Trump nunca será um Presidente convencional, também podemos dizer que Trump não é nenhum ditador e nem actuará como um fascista qualquer, como muitos dos seus detratores o apelidavam. Depois de umas primeiras semanas verdadeiramente caóticas, Trump evoluiu alguma coisa e demonstrou que tem aprendido com o cargo. Governar e lidar com a realidade é bem diferente de defender soluções simplistas e simplórias. Basta recordar algumas das reviravoltas que já deu nestes primeiros três meses, pois a NATO deixou de ser obsoleta, a Rússia de ser um potencial aliado, a China de manipular a moeda, Assad de ser um elemento estabilizador, a NAFTA afinal é para renegociar e não para abandonar ou a construção do muro com o México afinal já não ser urgente. E por aí podíamos continuar. Mas Trump também também evoluiu no relacionamento com os seus colaboradores, pois tem dado liberdade aos mais experientes, como Nikki Haley na ONU, James Mattis no Pentágono ou ao general McMaster para o ajudarem a definir políticas. E tem havido sinais consistentes que a linha dura de Bannon está a perder a batalha pela governação, ao mesmo tempo que vários políticos tradicionais do Partido Republicano têm moderado a sua oposição a Trump. E, curiosamente, depois de tantas críticas ao nepotismo de ter nomeado a filha Ivanka e o genro Jared Kushner, estes têm sido dos elementos mais centristas e moderadores da linha nacionalista na Casa Branca.

Trump vai continuar a ser um presidente bombástico; certamente o seu Twitter será um elemento estranho e provocador; nunca ganhará a eloquência ou a elegância que todos queríamos ver num POTUS; e continuará a fazer muitas asneiras e a dizer coisas esquisitas. Mas se Trump for realmente "amestrado" pelo establishment, como tem dado sinais disso, talvez consiga ser um presidente Ok. Sim, porque isso é mais optimista que consigo ser neste momento.


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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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