29
Fev 16
publicado por Alexandre Burmester, às 22:53link do post | comentar | ver comentários (1)

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Umas linhas para fazer uma análise acerca das perspectivas para esta Super Terça-Feira, entre os republicanos, e suas consequências.

 

As últimas sondagens dão um significativo apoio a Donald Trump:

 

- CNN/ORC (sondagem nacional): Trump 49%, Rubio 16%, Cruz 15%

- Texas (Emerson): Cruz 35%, Trump 32%, Rubio 16%

- Texas (ARG): Cruz 33%, Trump 32%, Rubio 17%

- Alabama (Monmouth): Trump 42%, Rubio 19%, Cruz 16%, Carson 11%

- Oklahoma (Monmouth): Trump 35%, Cruz 23%, Rubio 22%

- Georgia (Trafalgar Group - R): Trump 39%, Rubio 24%, Cruz 21%

- Massachusetts (UMass Amherst): Trump 47%, Rubio 15%, Cruz 15%, Kasich 11%

- Michigan (MRG): Trump 33%, Rubio 18%, Cruz 18%, Kasich 10%

- Kentucky (Western Kentucky Univ): Trump 35%, Rubio 22%, Cruz 15%

(dados do Real Clear Politics)

 

A sondagem nacional poderá ser um "outlier", para usar jargão dos técnicos de sondagens, ou seja, uma sondagem isolada que vai contra a tendência geral, e , como tal, não ser muito credível. A ser fidedigna, representa um substancial aumento do apoio a Donald Trump.

 

A nível dos estados que nesta terça-feira vão às urnas, as sondagens a que dou mais relevo são as do Texas, muito semelhantes uma à outra. Mostram que Ted Cruz corre o risco de não ganhar o seu próprio estado, o que poderia representar o fim da sua corrida (se tal prognóstico se pode fazer num ano como este) e mostram ainda que Marco Rubio poderá não angariar nenhuns delegados nesse estado (o mais importante dos que votam nesta terça-feira), pois o Texas exige um mínimo de 20% dos votos para atribuir delegados.

 

Dado que há estados que exigem 15% e outros 20% como mínimo para a atribuição de delegados, Cruz e Rubio correm o risco de, em alguns estados, não conseguirem qualquer delegado. E, a partir de 15 de Março, as primárias passam a atribuir a totalidade dos delegados ao vencedor em cada estado.

 

O racional para a continuidade de John Kasich na campanha é a expectativa de conseguir bons resultados nos estados industrializados do Norte e do Midwest, mas olhando para as sondagens de Michigan e Massachusetts, esse seu objectivo parece utópico.

 

Acho que a Super Terça-Feira de 1 de Março poderá ser uma autêntica avalanche favorável a Donald Trump.

 


27
Fev 16
publicado por Nuno Gouveia, às 09:00link do post | comentar | ver comentários (2)

As campanhas presidenciais americanas têm muitas regras não escritas que normalmente funcionam. Mas Trump está a revolucionar a política presidencial e todas têm vindo a ser derrubadas. Bem, todas menos uma regra fundamental: quem vence as primeiras eleições, normalmente conquista uma dinâmica de vitória capturando um apoio exponencial nas eleições seguintes. A única vez que tal não sucedeu foi em 1992 no Partido Democrata, quando o nomeado, Bill Clinton, apenas ganhou a sua primeira eleição (e mesmo assim, única nesse dia) na super terça-feira. De resto, sempre que alguém ganha o estatuto de frontrunner após as primeiras eleições, acaba por ser o nomeado. Trump tem cometido gaffes atrás de gaffes, proferido declarações bombásticas, demonstrado uma total ignorância sobre os princiais dossiês, feito propostas simplesmente inexequíveis, tem sido largamente ultrapassado nos gastos financeiros pelos seus adversários, declarou guerra à Fox News e é o candidato que tem menos apoios no Partido. Nesta fase, tudo isto significaria que não teria a mínima hipótese. E, no entanto, é o óbvio frontrunner e favorito para obter a nomeação. Será muito difícil travá-lo.

No debate desta quinta-feira Marco Rubio e Ted Cruz finalmente partiram ao ataque contra Trump, expondo as suas óbvias fragilidades como candidato. A crítica americana foi quase unânime em declarar que, pela primeira vez nesta campanha presidencial, Trump foi ridicularizado num debate e que a dupla Rubio/Cruz foi eficaz ao irem atrás do nova iorquino. Mas a mesma crítica também manifestou sérias dúvidas se este ataque frontal a Trump não terá sido demasiado tarde, pois o "momentum" de Trump parece ser quase imparável. E ontem, depois de uma manhã desastrosa nos media, Trump apresentou ao inicio da tarde o apoio de Chris Christie, que quebrou com a cobertura do debate. É verdade que finalmente as Super Pacs estão a atacar Trump (a de Rubio angariou 20 milhões de dólares esta semana para esse objetivo), mas também pode ser tarde demais. Um dos grandes mistérios destas eleições é que dos mais de 200 milhões de dólares já gastos nestas primárias em anúncios televisivos, apenas uma ínfima parte desse dinheiro foi gasto contra Trump. O maior alvo foi mesmo Marco Rubio, que foi massacrado por Jeb Bush, Chris Christie e Ted Cruz. Hoje no Twitter famosos activistas conservadores atacaram Trump e há uma revolta contra a possibilidade da sua nomeação. Mas se há umas semanas tivesse que apostar, colocaria o meu dinheiro num candidato que não Trump, neste momento, e pelo que tenho visto nas sondagens dos próximos estados, já não o faria.

A menos que o debate tenha mudado alguma coisa, Trump deverá vencer a maioria dos estados na próxima terça-feira (acredito que se tiver uma "má" noite, terá mesmo assim mais de 50% dos delegados em disputa) e se conseguir fazê-lo no Texas, Ted Cruz poderá mesmo ver-se obrigado a desistir (neste momento, Cruz vai à frente). Rubio poderá ficar em segundo na maior parte dos estados, mas caso não vença nenhum, que hipóteses terá? Vencer a maior parte dos estados que atribuem os delegados todos ao vencedor? Talvez, mas conseguirá vencê-los, contrariando a única regra que ainda não foi quebrada nestas primárias? Não me parece... Mas estas não são umas primárias iguais às que já vimos no passado, por isso, nunca se sabe. 

 

PS: hoje realizam-se as primárias da Carolina do Sul no Partido Democrata e Hillary Clinton é a clara favorita. Depois de algum momentum de Bernie Sanders, diria que a menos mude alguma coisa, Clinton deverá fechar a sua nomeação na super terça-feira. O #FeelTheBern caiu muito esta semana. 


21
Fev 16
publicado por Alexandre Burmester, às 14:56link do post | comentar | ver comentários (5)

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Uma vez que se perde na noite dos tempos a última vez que o nomeado republicano não venceu Iowa nem New Hampshire (e, muito menos, esses dois estados mais a Carolina do Sul); uma vez que o Iowa está pejado de cadáveres de candidatos que lá ganharam, mas que acabaram por soçobrar; uma vez que Donald Trump venceu já New Hampshire e Carolina do Sul, e Ted Cruz venceu no Iowa; uma vez que o "terceiro homem", o melhor que até agora conseguiu foi um segundo lugar (por uma unha negra) na Carolina do Sul - é legítimo dizer-se, sob o ponto de vista convencional, que Trump é agora o claro favorito.

 

Mas se este ano de 2016 desafia as convenções no tipo de candidatos que surgiram de ambos os lados, nada impede que as não venha a desafiar na escolha do candidato vencedor da nomeação republicana (pelo menos nesta).

 

O número substancial de candidatos republicanos, mesmo reduzidos a seis antes da Carolina do Sul, dá mais relevo aos resultados até agora obtidos por Donald Trump do que teria provavelmente sucedido se eles fossem apenas uns três. Na realidade, Trump parece já ter demonstrado que o seu limite de votação está na casa dos 30%, o que significa que cerca de dois terços dos votantes o não têm apoiado (e a pouca simpatia que uns 40% dos republicanos dizem às sondagens por ele nutrirem não augura nada de bom para uma sua eventual candidatura).

 

A maioria das primárias até 15 de Março atribui delegados proporcionalmente à votação, embora com limites mínimos de 15% ou 20% para que essa atribuição proporcional tenha lugar (a Carolina do Sul, que ontem votou, atribui-os todos ao vencedor). Isto significa que as vitórias obtidas até essa data têm mais efeito na dinâmica da corrida que na angariação de delegados propriamente dita. Jeb Bush acaba de desistir, o que poderá favorecer Marco Rubio em termos de apoios financeiros e de transferência de votos. O Governador do Ohio, John Kasich, que obteve um pírrico segundo lugar em New Hampshire e ontem terminou praticamente empatado com Bush, parece decidido a continuar, esperando melhores dias em terrenos mais favoráveis para ele, como Michigan e, claro, Ohio. O seus apoiantes seriam também potenciais votantes em Marco Rubio. Ben Carson também não dá sinais de desistir, mas o seu apoio parece estar a diluir-se. O perfil dos seus votantes é mais parecido com os de Cruz que com os de Rubio.

 

Na prática, estaremos agora a entrar numa corrida a três, uma vez que é expectável a perda de força por parte das campanhas de Kasich e de Carson. Num cenário desses, e uma vez que Trump pouco mais tem conseguido que 1/3 dos votos, poderemos vir a assistir a disputas mais renhidas. Mas Cruz e Rubio parecem mais entretidos em degladiarem-se do que em enfrentarem Trump directamente, o que poderá causar danos àquele dos dois que, eventualmente, possa sobrepôr-se a Trump.

 

Finalmente: não chega ter boas e promissoras prestações. Um destes dias, Marco Rubio terá de ganhar uma primária.

 

 


20
Fev 16
publicado por Nuno Gouveia, às 00:34link do post | comentar

Amanhã realizam-se importantes eleições: na Carolina do Sul no Partido Republicano e no Nevada no Partido Democrata. Não são decisivas, mas podem ditar o afastamento da corrida de alguns candidatos no lado do Partido Republicano, e contribuir para que Bernie Sanders possa afirmar-se como sério candidato à nomeação. 

 

Primárias da Carolina do Sul - 50 delegados no Partido Republicano (urnas encerram às 01h00 Domingo) 

Os vencedores dos sete distritos ficam com três delegados em cada e 29 serão atribuídos ao vencedor do estado. Na prática, se um candidato vencer nos sete distritos fica com os 50 delegados. É esperada nova vitória de Donald Trump, pois lidera as últimas dez sondagens no Estado, mas nos últimos dias os seus números têm descido. Ontem foi publicada uma que colocava Ted Cruz a apenas cinco pontos e hoje outra que colocava Marco Rubio apenas a três pontos. Mas a maioria coloca Trump acima dos 30%, com Rubio e Cruz a disputarem o segundo lugar. Jeb Bush e John Kasich disputam o quarto lugar e Ben Carson aparece em todas em último lugar. As indicações que têm surgido nos últimos dias apontam para uma desistência de Jeb Bush, caso fique atrás de Rubio e Ben Carson poderá não continuar se o seu resultado ficar abaixo dos 5%. Kasich parece determinado continuar até às primárias do Midwest, que acontecerão lá para o inicio da Primavera. Se Trump tiver mais uma vitória confortável, ficará em excelente posição para vencer no Nevada no dia 23 deste mês e com caminho aberto para a Super Terça-feira. Depois do péssimo quinto lugar no New Hampshire, Marco Rubio parece ter recuperado na Carolina do Sul e com os importantes apoios da popular Governadora Nikki Haley e o Senador Tim Scott tem subido nas sondagens. A sua campanha está em crescendo, mas precisa de ter excelente resultado aqui, e desta vez, um terceiro lugar poderá não ser suficiente. Continua a ter hipóteses de ganhar a nomeação mas precisa urgentemente que Kasich e Bush se retirem para ficar como o candidato único do establishment. Ted Cruz espera repetir a surpresa do Iowa, e caso não o consiga, precisa de ficar em segundo. Um terceiro lugar atrás de Rubio coloca-o em maus lençóis.

 

Caucus do Nevada - 43 delegados no Partido Democrata (começam às 18h00 de Lisboa) 

Os delegados são atribuídos proporcionalmente aos resultados. As sondagens no Nevada não são muito fiáveis e há a longa tradição de falharem. Por exemplo, em 2008 Mitt Romney tinha uma vantagem de 5 pontos sobre John McCain e acabou por vencer por 30 pontos. Talvez por isso não há muitas sondagens no Nevada, mas as três que foram conhecidas depois das primárias do New Hampshire colocam Hillary Clinton e Bernie Sanders num empate técnico, com ligeira vantagem para a antiga Secretária de Estado. Isto é particularmente relevante pois em Dezembro, Hillary tinha uma vantagem que oscilava entre os 20 e os 30 pontos. Esta eleição é importante para Bernie, pois tem suscitado um enorme entusiasmo entre os mais jovens, mas não demonstrou ainda que consegue conquistar importantes grupos demográficos nas primárias democráticas: os negros e os hispânicos. Ora, é expectável que cerca de 30% dos eleitores sejam hispânicos e negros, o que pode ajudar Bernie a mostrar que também pode vencer entre as minorias. Até ao momento, Hillary Clinton acredita que tem a eleição controlada na Carolina do Sul (que se realiza na próxima terça-feira), pois o enorme apoio que têm entre os negros não dá mostras de quebrar aí. Olhando para os números conhecidos, creio que mesmo que Hillary Clinton perca no Nevada, vencerá facilmente na Carolina do Sul, onde a percentagem de negros ultrapassa os 50%. Além disso, esta semana saiu uma sondagem da PPP nos estados da Super Terça-feira, que colocava Hillary a vencer em 10 dos 12 estados. Se isso se mantiver assim, pode arrumar com a questão nesse dia. Mas tudo está em aberto e se Bernie vencer no Nevada e ficar próximo na Carolina do Sul, o resultado é imprevisível. Diria que Clinton continua a ser muito favorita, mas as coisas podem mudar um pouco depois dos resultados de amanhã.

 


16
Fev 16
publicado por Nuno Gouveia, às 22:21link do post | comentar | ver comentários (8)

Nunca na história moderna do sistema político americano - desde 1976, quando o sistema de primárias como hoje vigora foi instituído - nenhum republicano foi nomeado sem vencer uma das três primeiras eleições. Depois da vitória de Ted Cruz no Iowa e Donald Trump no New Hampshire, a menos de uma semana das eleições na Carolina do Sul, todas as sondagens dão uma confortável vantagem a Trump. Se isto fosse um ano normal, não tenho dúvidas que o candidato Trump estaria com a nomeação praticamente ganha se vencesse, como é esperado, na Carolina do Sul. Mas isto não é um ano normal nem Trump é um candidato convencional. As elites republicanas estão em choque com a possibilidade de entregar a liderança do seu partido ao multimilionário e, igualmente assustados, que Ted Cruz esteja em segundo lugar nestas primárias. Considerados inelegíveis por muitos, a nomeação de Trump (e em menor grau, de Cruz), significaria um duro revés para a credibilidade de um partido que nos últimos anos tem-se afastado para a direita (tal como o Partido Democrata para a esquerda, como se vê pela popularidade de Bernie Sanders). Nomear Trump seria entregar o partido a um oportunista xenófobo e populista, que em muitos discursos faz lembrar a extrema-direita clássica europeia. Nomear Cruz, que é detestado pelos seus colegas no Senado, poderia significar ter o candidato mais à direita desde 1964, quando Barry Goldwater foi arrasado nas urnas por Lyndon Johnson. 

 

Se olharmos para os resultados do New Hampshire, as votações conjuntas de Bush, Rubio, Kasich e Christie, a soma ultrapassaria Trump. Nas sondagens da Carolina do Sul, estariam mais ou menos empatados e nas nacionais o mesmo. O que isto quer dizer? Se quiserem derrotar Donald Trump, os republicanos vão ter de se unirem rapidamente em redor de um destes candidatos. Não quer isso dizer que haverá uma transferência imediata das intenções de voto para este candidato, mas essa é a melhor hipótese de travar Trump. O problema para o GOP é que até ao momento, nenhum destes três tem razões para abandonar a corrida, pois têm a legítima esperança de ser o último dos três. Rubio tem a melhor campanha, mais apoios e a legítima expectativa de ser o opositor de Trump. Kasich, depois do segundo lugar no New Hampshire, não pode desistir. E Bush, bem, depois de já ter gasto mais de 100 milhões de dólares nesta campanha, vai continuar enquanto houver uma esperança de derrotar os seus adversários directos. Se os resultados do próximo sábado forem próximos entre estes três, e nenhum desistir, então a super terça-feira arrisca-se a ser um passeio para Trump, e aí sim, poderá tornar-se imparável. A dinâmica das campanhas presidenciais americanas diz-nos que depois de obter tantas vitórias seguidas, é quase impossível parar esse candidato. E não sei se Trump emergir na super terça-feira como grande vencedor, o conseguirão parar, mesmo que a campanha a partir daí fique reduzida a três ou até a dois candidatos, caso Ted Cruz também abandone a corrida.

 

Trump não é imparável, e não será uma vitória no próximo sábado que irá mudar esse cenário. Mas só uma corrida a dois ou a três, poderá neste momento parar o nova-iorquino. E quanto mais rápido isso suceder, maiores as possibilidades de derrotar Trump.


11
Fev 16
publicado por Alexandre Burmester, às 16:33link do post | comentar | ver comentários (2)

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"Deixa-me escrever acerca deste homem, antes que ele desapareça de cena", assim iniciou, um dia, o jornalista Murray Kempton - homem provido de um refinadíssimo sentido de humor - um artigo acerca de um candidato que acabara de ganhar surpreendentemente uma eleição primária.

 

Cito isto porque nesta fase da campanha é prematuro dizer-se se John Kasich, segundo na primária republicana de New Hampshire, veio para ficar, ou se brevemente "desaparecerá de cena". Uma coisa é certa: com o resultado obtido, Kasich tornou-se um novo possível foco do "establishment" republicano na sua, cada vez mais difícil, tarefa de apoiar um candidato que possa derrotar não só Donald Trump, mas também Ted Cruz.

 

Debruço-me aqui um pouco, portanto, sobre a carreira de Kasich, a qual contém ingredientes que o tornam um interessante candidato, com experiência executiva e legislativa, e com credibilidade.

 

Já como estudante na Ohio State University, Kasich demonstrava um agudo interesse pela política, e em 1970, com 18 anos,  teve até a ousadia de, através do presidente da universidade, fazer chegar uma carta ao Presidente Nixon, pedindo-lhe para o receber em audiência. Surpreendentemente, o presidente, provavelmente impressionado com a desenvoltura do jovem, acedeu e recebeu-o para uma audiência de vinte minutos (na foto que encima o artigo). 

 

A carreira política de Kasich teve início com a tenra idade de 26 anos quando, em 1978, se candidatou ao Senado do Estado do Ohio, derrotando o senador estadual democrático contra quem se bateu, e tornando-se o mais jovem senador da história desse estado. Em 1982 deu mais um passo em frente, candidatando-se à Câmara dos Representantes e derrotando, de novo, o respectivo membro em funções. Assim teve início uma carreira de dezoito anos na câmara baixa do Congresso, pois Kasich seria reeleito oito vezes (e sempre com votações de, pelo menos, 64%).

 

Na Câmara dos Representantes, Kasich teria um papel proeminente, tendo sido membro, durante os seus dezoito anos no lugar, da Comissão das Forças Armadas, na qual adquiriu uma imagem de falcão, mas também de combatente dos gastos supérfluos nas forças armadas. Nessa capacidade, foi um dos participantes mais activos na lei que reorganizaria o Departamento da Defesa, o Goldwater-Nichols Act de 1986. Em 1993 passou também a ocupar o lugar de representante da minoria na Comissão do Orçamento. Aí, chegou a apresentar um plano de reforma da saúde em oposição ao plano elaborado, e eventualmente frustrado, pela então Primeira Dama, Hillary Clinton. Em 1994, foi um de 42 republicanos que apoiaram uma lei anti-armas da Administração Clinton, o Federal Assault Weapons Ban.

 

Com a conquista das duas câmaras do Congresso pelos republicanos em 1994, Kasich passou a presidente da Comissão do Orçamento, lugar em que atingiu notoriedade nacional, ao tornar-se o principal autor de um acordo com a Administração Clinton, em 1997, que equilibraria o orçamento federal pela primeira vez desde 1969, marco de que Kasich justamente se orgulha, gostando até de dizer que foi "a última pessoa a equilibrar o orçamento".

 

Entre 2001 e 2009, Kasich voltou à vida privada, escreveu livros e desempenhou vários cargos executivos, incluindo sete anos como director no Lehman Brothers, onde permaneceu até à falência daquela instituição bancária. Deste aparente calcanhar de Aquiles, Kasich defendeu-se dizendo que não ocupava um lugar de destaque e que culpá-lo de alguma coisa seria como culpar um distribuidor da General Motors numa terreola qualquer pelo colapso daquele. gigante da indústria automóvel.

 

Em 2010, Kasich regressou à vida política ao concorrer - e ganhar - ao lugar de Governador do Ohio, detido pelo democrata Ted Strickland. Mais uma vez, derrotaria um adversário em funções. Foi reeleito em 2014, com 64% contra 33% do seu rival democrático.

 

Kasich é geralmente considerado um conservador do ponto de vista fiscal e também em questões sociais (tomou várias medidas restritivas do aborto enquanto governador), mas pôs em prática no Ohio medidas que proibem a discriminação com base na orientação sexual. Embora originalmente apoiado pelo Tea Party, a sua implementação de partes do Obamacare criou-lhe adversidades nesse campo. O seu currículo e experiência são talvez os mais completos de todos os candidatos republicanos (ou até, de todos os candidatos, tout court). Mas o seu pragmatismo e os seus instintos independentes criam-lhe barreiras em alguns sectores republicanos. 

 

Perante as dificuldades de Marco Rubio após New Hampshire, a falta de afirmação eleitoral de Jeb Bush, e a desistência de Chris Christie, John Kasich será talvez, neste momento, o candidato que o "establishment" republicano mais se inclinará a apoiar. Mas, para isso, o seu desempenho nas próximas primárias, em terrenos que lhe não são muito propícios, será colocado sob especial escrutínio.

 

 

 


10
Fev 16
publicado por Alexandre Burmester, às 17:06link do post | comentar | ver comentários (5)

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Contra o costume - mas não contra a expectativa dos últimos dias - a primária de New Hampshire, em vez de ajudar a clarificar ambos os campos, introduziu ainda mais confusão.

 

Se as vitórias de Donald Trump e Bernie Sanders eram esperadas - mas não a margem do triunfo deste último: mais de 20 pontos percentuais - à saída de Iowa a expectativa era que Marco Rubio, com um excelente terceiro lugar, conseguisse ser segundo em New Hampshire, assim prosseguindo a sua estratégia de "3-2-1", isto é, terceiro em Iowa, segundo em New Hampshire e primeiro na Carolina do Sul, próxima primária republicana. Contudo, o fraco desempenho do senador pela Flórida no debate do passado sábado terá sido fatal para os seus objectivos no "Granite State", onde acabou por apenas conseguir o quinto lugar, atrás de John Kasich, Ted Cruz e Jeb Bush (e, claro, de Trump). 

 

Está, portanto instalado o caos - este termo não me parece exagerado - no campo do "establishment" republicano (já agora: incluir Rubio entre os candidatos do "establishment", ele que chegou ao Senado com o apoio do Tea Party e desafiando o candidato "oficial" dos republicanos na respectiva primária, é um pouco de exagero, só possível pelo inesperado fenómeno Trump).

 

Será muito difícil a Kasich ter algum impacto de monta na Carolina do Sul ou no Nevada (os próximos estados a votarem), e a sua estratégia parece ser aguentar-se até que a campanha se vire para estados industrializados como Michigan e Ohio (é um popular governador deste último), mas antes disso terá a "Super Terça-Feira", a 1 de Março, onde cerca de uma dúzia de estados votarão, principalmente estados do Sul, e aí o terreno não lhe será favorável.

 

Ted Cruz não decepcionou nem brilhou em New Hampshire, onde as suas expectativas nunca foram grandes, dado não ser o melhor dos ambientes para alguém que seja o candidato dos conservadores evangélicos, como Cruz claramente é. A sua campanha não foi, portanto, afectada, e as suas aspirações mantêm-se intactas (e nas sondagens nacionais tem-se aproximado de Trump: a actual média no site realclearpolitics dá 30%-21% de vantagem a Trump). Mas, para ganhar ímpeto, não pode limitar-se a ir ficando em segundo lugar atrás de Trump nos vários confrontos que se avizinham, até porque está longe de ser certo que, quando outros candidatos forem desistindo, os apoiantes deles passem para o seu campo.

 

Marco Rubio sofreu um duro golpe e, se não tiver um bom resultado na Carolina do Sul, a sua candidatura estará em muito maus lençóis. Jeb Bush "limitou o prejuízo", como dizem os ciclistas que descolam nas subidas mais íngremes, mas quer-me parecer que tem os dias contados. Chris Christie parece que vai "suspender a campanha", eufemismo para a desistência, e Carly Fiorina e Ben Carson não contam para este filme.

 

Do lado democrático, Sanders pode ter tido uma retumbante vitória, mas continua a afigurar-se difícil o seu progresso. Nevada e Carolina do Sul, com os seus importantes blocos de votos latino e afro-americano, respectivamente, não são terreno favorável para o socialista de Vermont, cujo apoio entre as minorias é limitado. Mas tem angariado fundos impressionantes com origem em contribuições individuais e tem, portanto, meios para levar a luta até ao disputado mês de Março, em cuja primeira quinzena haverá uma verdadeira avalanche de primárias e onde tudo, do lado democrático, poderá ficar decidido. Apesar de tudo, Clinton continua, porém, a ser a favorita neste campo.

 

Os próximos tempos prometem ser interessantes.

 

Foto: John Kasich, Governador do Ohio, após o anúncio dos resultados em New Hampshire.


09
Fev 16
publicado por Nuno Gouveia, às 22:10link do post | comentar | ver comentários (2)

 

1 - Se parece haver poucas dúvidas sobre as vitórias de Bernie Sanders e Donald Trump (as sondagens levariam um rombo de proporções épicas), qual será a margem para ambos? Isso poderá ser importante para o que se vai dizer destes resultados. 

2 - Como irá Hillary Clinton reagir depois destas primárias? Será que vai anunciar alterações na sua estrutura de campanha? Vai mudar de estratégia e começar a atacar frontalmente Sanders? 

3 - Quem ficará em segundo lugar nas primárias republicanas? Há dias, Marco Rubio era o claro favorito, mas depois da sua prestação no debate do sábado passado, caiu nas sondagens. Diria que há três fortes candidatos, além de Rubio: John Kasich, que tem apresentado valores seguros, Jeb Bush, que apareceu ontem numa sondagem em segundo lugar e Ted Cruz, que manteve-se sempre próximo do segundo lugar. 

4 - Quem irá desistir depois desta noite? Apostaria em Chris Christie, que praticamente só fez campanha neste estado e se ficar atrás dos três governadores, nada mais terá a fazer nesta campanha. Carly Fiorina é também uma forte candidata se as sondagens se confirmarem. Ben Carson poderá tentar ficar, mas a sua campanha já está literalmente morta. Se Bush ou Kasich desiludirem, também dificilmente continuarão. Mas não apostaria nisso. 

5 - Qual será a grande surpresa desta noite? Já estamos habituados a surpresas em noites eleitorais de primárias e esta não deverá fugir à regra. Teremos esta noite um "comeback kid", como em 1992 com Bill Clinton ou em 2008 com John McCain? Se sim, o mais sério candidato será Jeb Bush, que pode renascer hoje. Mas atenção a John Kasich.


06
Fev 16
publicado por Nuno Gouveia, às 22:22link do post | comentar | ver comentários (1)

Estamos a três dias das primárias do New Hampshire e já se podem retirar ilações dos resultados do Iowa. Esta noite ainda teremos, a partir das 01h00 (de Lisboa), um debate republicano transmitido pela ABC, mas mesmo acreditando que poderá haver alterações nos próximos três dias, será difícil que Bernie Sanders e Donald Trump não saiam vencedores na terça-feira. 

Bernie Sanders continua a surpreender, e depois do empate técnico que alcançou no Iowa, a sua situação melhorou. No New Hampshire, e apesar de uma ligeira recuperação de Hillary Clinton, deverá alcançar uma vitória confortável, que o poderá catapultar para outros voos. A sua vitória não parece estar  em causa, mas a diferença vai ser relevante para o seu futuro. Fala-se muito na firewall de Hillary Clinton na Carolina do Sul, mas há três semanas que não se fazem lá sondagens e em 2008 também havia esta segurança e depois foi o que se viu. Clinton continua a enfrentar muitos problemas devido ao caso dos emails e esta semana voltaram a ser referidos os chorudos pagamentos que recebeu de discursos que efectuou depois de sair do Departamento de Estado. Num estudo da Quinnipiac, foi colocada atrás sete pontos de Marco Rubio e a desconfiança dos americanos tem crescido. O entusiasmo neste momento está do lado de Sanders e Clinton precisa urgentemente de "perder por poucos" no New Hampshire e vencer na Carolina do Sul, para repor alguma normalidade nestas primárias. Caso contrário, deve mesmo preparar-se para uma longa campanha. 

No Partido Republicano, Marco Rubio cresceu, quer no New Hampshire quer a nível nacional, mas será muito difícil que possa vencer já na terça-feira. Donald Trump permanece como o grande favorito para vencer no New Hampshire, e outro resultado será um desastre para ele. Ted Cruz joga "fora de casa" e tentará obter um bom resultado para a seguir tentar vencer na Carolina do Sul, onde a demografia lhe é mais favorável. Mas as primárias republicanas, que chegaram a ter 15 candidatos, dificilmente não serão uma longa caminhada que se pode arrastar até Junho. Numas primárias republicanas existem sempre dois lados: os conservadores contra o establishment. Este ano surgiu uma linha diferente, com o populismo de Donald Trump. Do lado conservador, Ted Cruz já emergiu como vencedor (eliminando Huckabee, Santorum, Perry, Jindal, Paul e está prestes a acabar com Ben Carson). Marco Rubio precisa agora de fazer o mesmo com John Kasich, Chris Christie e Jeb Bush, e será esse o grande ponto de interesse destas primárias. Se, como esperado, Marco Rubio conseguir um bom segundo lugar, a corrida irá continuar a três: Donald Trump, Ted Cruz e Marco Rubio. E é aí que Rubio poderá emergir como potencial vencedor, apesar de previsivelmente não vencer nenhuma das duas primeiras eleições. Esta semana já recebeu o apoio de dois antigos concorrentes, Bobby Jindal e Rick Santorum, que por pertencerem à ala mais conservadora, poderão ajudá-lo na união das várias facções do partido. Isto, claro, se não houver surpresas na terça-feira

 


05
Fev 16
publicado por Alexandre Burmester, às 00:15link do post | comentar

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O Estado de New Hampshire (the Granite State) tem um longo e rico historial nas eleições presidenciais americanas. O facto de nele ter lugar a primeira primária propriamente dita contribui largamente para isso, como é óbvio.

 

Em New Hampshire, muitos candidatos criaram ilusões e ganharam confiança, e muitos também sofreram grandes desilusões.

 

De facto, embora seja muito importante a votação neste estado, há muitos casos de vencedores que acabaram por fracassar no objectivo da nomeação como candidatos do seu partido.

 

Alguns casos históricos (de notar que o peso das primárias nas convenções partidárias era menor até 1972 do que é agora):

 

- Em 1952 e 1956, o senador democrático Estes Kefauver venceu aqui, mas em ambos os anos, o candidato do partido foi Adlai Stevenson, antigo governador do Illinois;

- Em 1960, o Vice-Presidente Richard Nixon venceu o estado com 89% dos votos republicanos, o que deve constituir um recorde para um candidato que não fosse já presidente. Nixon seria o nomeado republicano.

- No mesmo ano, do lado democrático, John Kennedy teve 85% dos votos, mas provinha do vizinho estado de Massachusetts, o que é sempre uma ajuda.

- Em 1968, o New Hampshire foi determinante: o Presidente Lyndon Johnson foi desafiado pelo Senador Eugene McCarthy. Venceu, mas apenas por 50% - 42%. Essa vitória curta levaria Johnson a abandonar a corrida poucos dias depois.

- Ainda em 1968, Richard Nixon iniciou o seu regresso após as derrotas nas presidenciais de 1960 e na eleição para governador da Califórnia em 1962, com mais uma retumbante vitória (78% - aliás venceria todas as primárias a que concorreu). Em Novembro seria eleito.presidente.

- Em 1972, o Senador democrático Edmund Muskie, favorito à nomeação pelo seu partido, venceu a primária, mas acabaria por não ser o nomeado, Seria "vítima" de uma espécie de Bernie Sanders da época, o seu colega no Senado George McGovern.

- Em 1980, Ronald Reagan deu um passo firme na sua afirmação como potencial candidato republicano, ao vencer o estado com 50% dos votos contra 23% de George H. W. Bush.

- Em 1992, o Senador Paul Tsongas bateu o Governador do Arkansas, Bill Clinton (33%-25%), mas Clinton seria o nomeado pelos democratas.

- Em 1996, Pat Buchanan conseguiu uma vitória tangencial (27%-26%) sobre o Senador Bob Dole, mas seria este último o nomeado republicano.

- Em 2000, o Senador John McCain venceu o Governador do Texas George W. Bush (49%-30%), mas isso de nada lhe valeria, como sabemos.

- E, finalmente, em 2008, a Senadora Hillary Clinton venceu o Senador Barack Obama (39%-36%), mas também aí, isso de nada valeria,

 

Uma coisa é certa: o último presidente a ser eleito tendo perdido Iowa e New Hampshire nas primárias foi Bill Clinton. Este ano a coisa é capaz de se repetir.

 

 

 


04
Fev 16
publicado por Nuno Gouveia, às 00:43link do post | comentar

Num ano normal, os endorsements de senadores, congressistas e governadores costumam ser um bom indicador para sabermos quem irá obter a nomeação. Estes são importantes para obter apoio nos diferentes estados, pois apesar dos políticos terem relativamente má imagem na generalidade da sociedade, os americanos gostam dos seus eleitos (as taxas elevadas de reeleição assim o provam). Esta campanha republicana tem sido atípica e não é por acaso que  tem havido poucos endorsements, comparativamente com outros anos eleitorais. Do lado democrata, Hillary tem uma vantagem avassaldora sobre Bernie Sanders.

 

Nate Silver tem um endorsement tracker e anunciou hoje que Marco Rubio passou para a liderança do lado republicano, depois de ter recebido o apoio do senador da Pensilvânia, Pat Toomey e de mais dois congressistas. O segundo classificado é Jeb Bush, apesar dos seus apoios terem sido quase todos recebidos na fase inicial desta campanha. Desde Dezembro apenas recebeu o apoio do senador Lindsay Graham, depois deste ter desistido da eleição. De resto, destaque para Donald Trump, que não tem um único apoio de eleitos republicanos, enquanto Ted Cruz apenas tem o apoio de congressistas. Marco Rubio recebeu hoje também o apoio de Rick Santorum, que anunciou a sua desistência da corrida presidencial. Do lado democrata, não há duvidas de que lado está o Partido: no ranking de Silver, Hillary Clinton tem 465 pontos contra dois de Bernie Sanders, que correspondem ao apoio de dois congressistas. Depois do New Hampshire, a sucessão de endorsements deverá aumentar, sobretudo do lado republicano. 


02
Fev 16
publicado por Nuno Gouveia, às 21:28link do post | comentar

Nos últimos meses prognostiquei, e também aqui, que estas eleições iriam ser decididas entre Ted Cruz e Marco Rubio (com vantagem para este último) e que Hillary Clinton teria uma nomeação mais ou menos facilitada. Apesar dos últimos tempos terem desmentido parcialmente essa minha previsão, mantenho a minha aposta quanto aos nomeados. Se isso suceder, então as regras não escritas das primárias ainda contarão alguma coisa, e Rubio será o escolhido porque é aquele quem tem mais hipóteses de unir as facções do partido e de vencer as eleições gerais, enquanto Hillary, que está há mais de uma década a concorrer, desta vez não falhará a nomeação. Se analisarmos o estado da corrida, mesmo depois dos resultados do Iowa, encontramos algumas fragilidades nessa minha previsão inicial, é verdade. O radicalismo de ambos os lados, com a candidatura insurgente de Bernie Sanders, o candidato mais à esquerda desde George McGovern em 1972, e com o populismo xenófobo de Donald Trump e o radicalismo ideológico de Ted Cruz, está a ameaçar o status quo partidário americano. Mas vamos por partes. 

 

Hillary Clinton ontem apenas venceu no Iowa devido a tecnicalidades (consta-se que ganhou seis caucus com moeda ao ar) e parte para o New Hampshire em maus lençóis. Isto apesar de manter uma grande vantagem nos estados seguintes, na Carolina do Sul e Nevada, e liderar confortavelmente as sondagens nacionais. Mas tudo pode precipitar-se após o New Hampshire, onde é esperada uma vitória de Bernie Sanders. Este, com um discurso populista (recorde-se que o candidato afirma-se socialista, uma palavra maldita no mainstream americano), propõe-se a liderar uma revolução contra Washington - ele que está lá desde 1991, primeiro no Congresso e depois no Senado. Ontem teve o apoio entusiástico da juventude, com mais de 84% dos votos dos eleitores com menos de 30 anos, a fazer recordar as votações de Obama em 2008. Mas o problema para Sanders é que ele, velho senador de 74 anos, não mostrou ainda que tem condições para replicar a coligação de Obama, ao não captar o voto das minorias étnicas e das mulheres. O voto da juventude será escasso para o levar à nomeação. Precisará de alargar o seu apoio, sobretudo em relação às minorias, sem as quais não conseguirá obter a nomeação. Nas próxima semanas, Hillary Clinton terá de fazer o seu trabalho: tentar perder por pouco no New Hampshire e selar vitórias categóricas no Nevada a 20 de Fevereiro - onde ganhou em 2008 -  e na Carolina do Sul a 27, onde é amplamente favorita, dado a elevada população afro-americana. Se for assim, chegará à Super Terça-feira, a 1 de Março, com reais hipóteses de selar a nomeação nessa semana. Repito, isto é o cenário mais plausível. Não quer dizer que vá acontecer, principalmente se Bernie Sanders começar a crescer nos inquéritos nacionais e no Nevada e Carolina do Sul. É que apesar de ter perdido ontem por poucos, a sua cobertura mediática foi positiva e isso pode catapultá-lo para outros voos. Improvável, mas possível.

 

No Partido Republicano, é bem mais complicado tentar adivinhar os próximos passos. É bem possível que após o New Hampshire haja uma total redefinição do leque de candidatos, com vários abandonos, e que fique uma corrida a três, entre Ted Cruz, Donald Trump e Marco Rubio. Só no final desta semana é que começarão a sair sondagens efetuadas após o Iowa, e é preciso esperar para analisar os estudos estaduais e nacionais. Diria que Marco Rubio e Ted Cruz tenderão a crescer e Donald Trump a descer. O senador do Texas irá competir no New Hampshire, mas a sua cabeça passará a estar na Carolina do Sul, onde os evangélicos representam mais de 60% do eleitorado e que lhe podem dar uma vitória a 20 de Fevereiro. Trump tentará obter uma vitória no New Hampshire e até tem tido uma grande vantagem nas sondagens neste estado, mas resta ver o quanto irá descer depois da derrota de ontem. Marco Rubio não precisa de ganhar, embora se tal acontecesse, assumiria desde logo o estatuto de principal favorito e partiria para a Carolina do Sul com grande força para derrotar Ted Cruz. Mas o principal objectivo de Rubio será ficar bem acima dos 20% e eliminar já no New Hampshire a concorrência pelo estatuto de candidato das elites e do mainstream do partido. Para isso, terá que anular John Kasich, Chris Christie e Jeb Bush. Estes tiveram resultados péssimos no Iowa, mas isso já era esperado, e jogam tudo no New Hampshire. Não parece credível, no entanto, que algum destes candidatos mais centristas consigam sobreviver nas próximas semanas. Isto quererá dizer que Marco Rubio será a última esperança dos republicanos moderados, um cenário que já se vem desenhando há algum tempo. Ted Cruz seria o candidato mais à direita do Partido Republicano desde 1964. Donald Trump, bem, seria o elemento mais estranho de sempre a ser nomeado por um dos dois partidos do sistema político americano. O mais parecido que apareceu foi George Wallace, o antigo democrata que se candidatou como independente numa plataforma racista em 1968. De qualquer forma, parece que esta vai ser uma corrida longa e será difícil que a 1 de Março haja vencedor definitivo. Prevejo uma longa corrida, com Rubio a vencer no final Cruz e/ou Trump. A menos que Rubio consiga vencer no New Hampshire e Carolina o Sul, imitando Mitt Romney e John McCain. Improvável, mas possível.

 

Se isto tudo não tiver passado de um grande entretenimento, então teremos Hillary Clinton de 68 anos contra Marco Rubio de 44 anos. Um grande gap geracional em confronto. O inverso que tivemos em 2008, com John McCain de 71 anos e Obama, de 46 anos.

 


publicado por Nuno Gouveia, às 10:18link do post | comentar | ver comentários (8)

1 - O Partido Republicano suspirou de alívio ontem depois da derrota de Donald Trump. Apesar do vencedor, Ted Cruz, ser também um político odiado, a derrota de Trump e o forte terceiro lugar de Marco Rubio alivou muita gente. A votação recorde no Iowa demonstrou também que houve uma grande mobilização para derrotar Trump, o que pode ser replicado noutros estados. Essa foi a grande notícia para a máquina republicana. 

 

2- Ted Cruz e Marco Rubio emergiram como grandes vencedores nos caucuses do Iowa. Este estado, que nos dois anteriores ciclos eleitorais deu vitórias a evangélicos, manteve a recente tradição e deu uma vitória inesperada a Cruz. Rubio ao conseguir um terceiro lugar, muito perto de Trump, solidifica a sua posição como candidato do establishment e pode, já na próxima semana, “arrumar” com Jeb Bush, Chris Christie e John Kasich, os adversários neste campo. Se é verdade que desde 1964 os republicanos optam sempre pelo candidato melhor posicionado para as eleições gerais, este ano poderá não ser diferente.

 

3 - Donald Trump afinal é um "perdedor", palavra que ele detesta. Se até há uns meses atrás, a esmagadora maioria dos analistas (e eu também) não acreditava nas suas hipóteses de obter a nomeação, nos últimos tempos essa percepção foi alterada. A sua derrota no Iowa coloca novamente em causa essa possibilidade, e atira uma enorme pressão para cima dele no New Hampshire. À entrada para esta semana, ele liderava confortavelmente as sondagens aí, mas até como vimos no Iowa, elas podem falhar e os movimentos de última hora, podem-lhe retirar a vitória. Se não vencer no New Hampshire, a sua candidatura estará praticamente terminada. 

 

4 - Marco Rubio irá agora competir no New Hampshire, não propriamente para ganhar, mas para eliminar a concorrência próxima. Ficaria surpreendido se a vitória no New Hampshire não fosse discutida entre Rubio e Trump. Ontem foi anunciado que o popular senador negro da Carolina do Sul, Tim Scott, irá declarar-lhe o seu apoio e nos próximos dias devemos ver um movimento de figuras do Partido Republicano a colocarem-se ao seu lado. Depois desta vitória, e acreditando que alguém tão conservador como Ted Cruz dificilmente terá uma hipótese no moderado New Hampshire, este irá deslocar-se rapidamente para a Carolina do Sul. Aí, podemos ter uma luta a três (se Trump vencer no New Hampshire) ou a dois, caso Rubio consiga ganhar. Tudo em aberto, mas para o resultado final, apostava em Marco Rubio para nomeado republicano. 

 

5 - No lado democrata, a confusão está instalada. Hillary Clinton já se declarou vencedora com 49,9% contra os 49,5% de Bernie Sanders, mas este ainda não aceitou a derrota. Uma vitória é uma vitória e Hillary Clinton ter-se-á salvado de nova derrota no Iowa, depois de há quatro anos ter sido esmagada por Barack Obama e John Edwards. Um resultado que não pode deixar descansado o campo de Hillary, pois há um ano tinha uma vantagem de mais de 50% sobre Sanders neste estado.

 

6 - Para a próxima semana, Bernie Sanders poderá obter uma vitória confortável no New Hampshire. Os resultados do Iowa não darão "momentum" a Hillary Clinton. Mas parece-me que Bernie precisava de vencer aqui para transformar-se num candidato nacional, o que não sucedeu. Muita gente a comparar com o que aconteceu com Obama, que quando chegou ao Iowa também estava atrás de Hillary em quase todos os estados e nas sondagens nacionais. Mas foi essa vitória que o fez crescer. Parece-me muito complicado para Sanders replicar. A seguir ao New Hampshire, segue-se a Carolina do Sul, onde Hillary Clinton é super favorita. 

 

7 - Caso não exista nenhum movimento extraordinário pró-Sanders nas sondagens nacionais e noutros estados, Hillary Clinton poderá fechar a nomeação na super terça-feira em Março. Mas entrará relativamente frágil nas eleições gerais. Ontem os jovens votaram de uma forma avassaladora em Sanders, e com os problemas todos que Hillary tem tido, não terá vida fácil em Novembro. A sua campanha tem dado sinais que o candidato que mais a preocupa é Marco Rubio. Precisamente aquele que parece emergir do outro lado. 


01
Fev 16
publicado por Era uma vez na América, às 15:16
Nuno Gouveia às 15:32link do post | comentar

Sem Título.pngOntem escrevi que o movimento nas sondagens em favor de Rubio não indicavam que fosse suficiente para chegar ao segundo lugar. Mas há pouco estive a consultar as sondagens e  verifiquei que houve, de facto, um movimento em prol de Rubio nos últimos dias. Na sondagem da Opinion Savvy, Rubio surge mesmo empatado com Ted Cruz e apenas a um ponto de Donald Trump. E na Emerson, aparece apenas quatro pontos atrás de Cruz e cinco de Trump. Quer isto dizer que pode ganhar? Muito, muito improvável. Mas o segundo lugar já não está assim tão distante. A acompanhar de perto nesta próxima madrugada. 

 

PS: no lado democrata, o ligeiro favoritismo de Hillary Clinton mantém-se. 


publicado por Era uma vez na América, às 13:02link do post | comentar

Retirado daqui. Como se pode observar, apenas em 1992 e no lado democrata tivémos um vencedor que não ganhou um dos primeiros dois estados, sendo que no Iowa ninguém competiu contra Tom Harkin, governar popular do estado na época. Também é raro que o nomeado vença os dois estados (só Carter em 1980 e Al Gore em 2000 o fizeram). Fica a nota história. 


publicado por Era uma vez na América, às 12:01link do post | comentar

Democrat - novo site sobre as eleições americanas, da responsabilidade do Francisco Castelo Branco. Aqui, um artigo com a minha colaboração. 


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Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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