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Dez 11
publicado por Alexandre Burmester, às 00:04link do post | comentar

 

 

 

 

Como sabemos - ou presumo que se saiba deste lado da "poça" - a eleição presidencial americana não é uma eleição directa. De facto, trata-se de uma eleição indirecta, através de um colégio eleitoral onde o peso de cada estado da União, em termos demográficos, é tido em conta. Esta é mais uma das facetas onde a sabedoria constitucional americana é peculiar. Embora raramente isso se tenha verificado - a última vez em 2000, na vitória de George W. Bush sobre Al Gore - é possível um candidato vencer o voto popular e não vencer a eleição presidencial, isto porque o sistema eleitoral americano procura preservar os direitos dos estados sobre o todo federal.

 

Vem isto a propósito das contas que a campanha do Presidente Obama tem de fazer para garantir a maioria de votos - 270 - no Colégio Eleitoral.

 

E a coisa não se apresenta fácil, independentemente das sondagens a nível nacional que apontam para uma derrota de Obama contra um republicano "genérico", e lhe dão vitórias mais ou menos "suadas" contra os mais proeminentes candidatos republicanos.

 

Independentemente da característica americana , porventura herdada dos seus avós britânicos, de que só se muda se for garantidamente para melhor, a verdade é que os estados cruciais para a eleição de 2012 - os chamados "battleground states" - pendem neste momento claramente para os republicanos. Em 2008 Obama triunfou sobre John McCain com uma vantagem de 365 contra 173 votos no Colégio Eleitoral. Nesta altura da corrida, qualquer prognosticador moderadamente prudente aventaria uma vitória do candidato republicano nos seguintes estados ganhos por Obama em 2008 (entre parêntesis o número de votos de cada um desses estados no referido Colégio Eleitoral): Nevada (5), Iowa (7), Indiana (11), Ohio(20), Florida (27), New Hampshire (4), Virginia (13) e Carolina do Norte (15). A confirmar-se, isto traria o total eleitoral de Obama para os 263 votos e, consequentemente, o do seu rival republicano para os 275, ou seja, uma vitória republicana. E nem sequer estou aqui a incluír outros estados que Obama venceu em 2008 e onde poderá ter muitas dificuldades em 2012, tais como Colorado (9), Pensilvânia (21), Minnesota (10) e Wisconsn (10). Diga-se desde já que uma vitória republicana na Pensilvânia significará a conquista da Casa Branca sem mais rodeios.

 

Mas, para além da aritmética eleitoral, há a questão das minorias e dos grupos etários mais jovens, de há muito entre os principais suportes do Partido Democrático. Se Obama pode contar em 2012 com a tradicional votação maciça dos negros no candidato democrático, o mesmo já se afigura mais difícil, em comparação com 2008, com o maior grupo entre as minorias, os chamados "hispânicos", pois convém não esquecer que George W. Bush, na sua reeleição em 2004, conseguiu nesse grupo um score superior a 40%, e que um resultado semelhante do candidato republicano em 2012 muito provavelmente significaria uma derrota de Obama, tendo em atenção, especialmente, o peso desse eleitorado em "battlegrounds" como Nevada, Colorado e New Mexico (este último nem sequer incluído nas contas que acima fiz). Temos ainda o sector dos "eleitores jovens" (entre os 18 e os 29 anos), também um dos pilares da eleição de Obama em 2008. Pois bem, neste momento, nesse segmento do eleitorado, a popularidade do Presidente está abaixo dos 50%.

 

Atendendo às previsões económicas e às opiniões dos vários segmentos do eleitorado, nesta altura do "campeonato", ou seja, a pouco mais de 10 meses das eleições, eu diria que o mais provável é Obama ser derrotado em Novembro de 2012. Mas claro que há sempre imponderáveis - como, especialmente, os de política externa, não mencionando as famigeradas "October Surprises" - que podem alterar estas perspectivas. Isto sem falar, claro, de quem será o seu opositor - um homem de carne e osso como ele, e não um "republicano genérico".

 

 

Nota: Utilizei os números do Colégio Eleitoral de 2008; entretanto houve um recenseamento que poderá ter alterado o peso relativo dos estados por mim mencionados, embora, penso, sem impacto significativo nos meus cálculos acima descritos.

 

 

 


É verdade que Obama está em maus lençóis para as eleições de Novembro de 2012. Contudo, acho que é exagerado dizer que é provável que seja derrotado.
Em primeiro lugar, parece-me que é demasiado pessimista em relação à hipóteses de Obama nos estados referidos. Penso que no New Hampshire e no Nevada Obama é favorito, enquanto que na Virginia, na Carolina do Norte e no Iowa a corrida está, pelo menos, em 50-50.
Em relação aos hispânicos, sendo verdade que Bush 43 conseguiu bons resultados junto deste grupo eleitoral, não é menos verdade que nenhum dos candidatos republicanos tem a mesma capacidade do antigo Presidente de apelar aos eleitores hispânicos. Basta ver que as ideias de imigração de Bush são agora muito criticadas pela maioria dos republicanos. Além disso, a lei de imigração do Arizona, que os republicanos defendem e os democratas atacam, será abordada pelo Supremo Tribunal no próximo ano. Assim sendo, esse tema será seguramente aproveitado pelos democratas estimularem o voto latino em força contra o candidato republicano.

João Luís a 23 de Dezembro de 2011 às 15:59

Bem, caro leitor, no New Hampshire, por exemplo, a taxa de aprovação de Obama estava recentemente nos 39%. Virgínia, Carolina do Norte e Iowa são estados tradicionalmente republicanos (desde 1964 que um candidato presidencial democrático não ganhava a Virgínia, por exemplo). Todos os estados que mencionei, à excepção de New Hampshire, foram ganhos por Bush em 2004.

Quanto à questão dos latinos, uma boa escolha de um candidato a Vice-Presidente pelos republicanos (estou a pensar em Marco Rubio), poderá dar-lhes um novo fôlego junto desse sector do eleitorado. Mas concordo que Bush - que até falava espanhol - tinha maior apelo junto dele do que qualquer dos actuais candidatos do G.O.P.

Cumprimentos

Tem razão, mas a Virginia e a Carolina do Norte são dois Estados que estão a sofrer alterações demográficas que favorecem os democratas, fruto do grande número de jovens e adultos com altos níveis de escolaridade que se estão a deslocar para esses Estados. Se Obama vencer num destes locais então terá a reeleição quase certa.
Concordo que Rubio seria uma escolha forte para VP e presumo que estará no topo da shortlist de Romney. Contudo, Rubio é cubano-americano, um subgrupo hispânico que nada tem a ver com o restante eleitorado latino. Os cubano-americanos são tradicionalmente mais próximos do GOP, em consequência da política normalmente mais "tough on Cuba" do Partido Republicano, mas também porque nunca perdoaram a um presidente democrata - JFK - o falhanço da Baía dos Porcos.
Penso que a eleição de 2012 não passará tanto pela penetração do candidato do GOP nas minorias étnicas (acredito que não será capaz de o fazer), mas sim pela capacidade da campanha de Obama em motivar e conseguir que esses eleitores se desloquem às urnas em grandes números para votar no candidato democrata.
Um abraço.
João Luís a 23 de Dezembro de 2011 às 17:41

Meu caro,

São conhecidas essas alterações demográficas. No caso da Virgínia, elas devem-se essencialmente ao facto de a parte norte do estado se ter tornado uma espécie de subúrbio de Washington. Mas tal não impediu um republicano de ser eleito Governador da Virgínia em Novembro de 2009, ou seja, um ano após Barack Obama ter ganho o estado.

Concordo que uma vitória de Obama na Virgínia em 2012 decerto representaria uma vitória sua nas eleições - um pouco como os republicanos e a Pensilvânia (onde em 2010, um republicano conservador ganhou a eleição para o Senado, facto a ter em conta).

Quanto a Rubio, o facto de os cubano-americanos serem um segmento especial do voto "latino" não significa que a sua inclusão no "ticket" não funcionasse como atracção de votos "latinos".

Um Bom Natal

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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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