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Nov 11
publicado por Nuno Gouveia, às 23:25link do post | comentar

 

A eleição presidencial de 1884 foi marcada pelo regresso à Casa Branca de um Democrata vinte cinco anos depois do último presidente do mesmo partido. O anterior Democrata eleito tinha sido James Buchanan em 1856, que ainda hoje é considerado pelos historiadores como o pior presidente da história americana. Mas não se pense que esta eleição foi fácil, pois o vencedor, Grover Cleveland, foi afectado por diversos escândalos durante a campanha.

 

Os republicanos reuniram-se em Chicago durante o Verão desse ano para escolher o seu candidato. O Presidente da época, Chester A. Arthur, que tinha assumido a Presidência depois do assassinato de James Garfield em 1881, apresentou-se como candidato à nomeação, mas os republicanos optaram pelo senador James Blaine do Maine, na época o republicano mais poderoso. Foi ainda nesta convenção que foi proferida uma frase mítica que ainda hoje faz eco na política norte-americana. O herói da guerra civil, o general William Sherman foi pressionado para se candidatar, mas ele afirmou: "If drafted, I will not run; if nominated, I will not accept; if elected, I will not serve". Ficou conhecida como a Sherman Pledge.  A nomeação Democrata não teve grande história. Animados com a perspectiva de regressarem à Casa Branca, o partido uniu-se em torno do governador de Nova Iorque, Grover Cleveland, que tinha feito nome ao enfrentar a máquina corrupta do Partido Democrata do estado, conhecida pela Tammany Hall. 

 

Esta campanha ficou marcada pelos ataques de carácter feitos a Grover Cleveland e pela divisão que afectava o Partido Republicano, depois de 25 anos de poder. O anterior Presidente Chester A. Arthur nem sequer fez campanha por Blaine, bem como uma boa parte do GOP, que considerava Blaine corrupto e que trabalhou para ajudar a eleger Cleveland. Estava tudo inclinado para uma vitória fácil de Cleveland quando em Julho de 1884 rebentou um grande escândalo para a época. Foi revelado pelo Buffalo Evening Telegraph que Cleveland, enquanto jovem, teve um caso fora do casamento com uma viúva de Buffalo, Nova Iorque, e que em resultado desse affair teve um filho ilegítimo com ela. Os republicanos aproveitaram o caso e rapidamente começaram a atacar Cleveland , inventando até uma rima para o adversário que ficou famosa: "Ma, Ma, where's my Pa?".  O caso assumiu maiores proporções porque o filho teria crescido num orfanato e a mãe internada num hospício. A campanha de Cleveland, respondendo de uma forma não natural para a época, assumiu que de facto era possível que o filho fosse dele (não tinha a certeza), mas que assumira o filho e ajudara-o a encontrar um lar para viver. 

 

A vitória de Cleveland estava em causa, mas o candidato republicano cometeu uma gaffe de proporções históricas que lhe terá custado a eleição. A uma semana das eleições, Blaine participou num encontro com pregadores evangélicos, onde um deles criticou duramente aqueles que tinham abandonado o GOP para apoiar um partido cujo passado era marcado pelo "Rum, Romanism and rebellion", ou seja, álcool, catolicismo e rebelião. Blaine esteve toda a reunião em silêncio, o que o prejudicou imenso perante o eleitorado católico e irlandês, pois a imprensa publicitou de forma agressiva esta reunião. Numa eleição em que Cleveland venceu com mais 0,53% dos votos em termos nacionais, acabou por ser decisivo o resultado do estado de Nova Iorque, onde Blaine perdeu por 1049 votos. Na época atribuiu-se a derrota de James Blaine precisamente aos votos católicos. A celebração de vitória dos democratas foi entoada aos cânticos "Ma, Ma, where's my Pa? Gone to White House, ha, ha, ha!". 

 

Grover Cleveland viria a ser derrotado em 1888 pelo republicano Benjamin Harrison, mas regressaria novamente à Casa Branca nas eleições de 1892, um facto inédito até aos dias de hoje, exercendo dois mandatos não consecutivos. 


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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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