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Out 11
publicado por Nuno Gouveia, às 22:18link do post | comentar

 

As eleições presidenciais de 1876 foram das mais polémicas de toda a história americana. Envolveu votos no Congresso, comissões independentes e até negociações com congressistas de outro partido. O vencedor foi o republicano Rutherford B. Hayes. Esta eleição terá marcado o fim da Reconstrução, período pelo qual são conhecidos os anos seguintes à Guerra Civil. Mas regressemos ao inicio. 

 

Os republicanos reuniram-se, na sua sexta convenção, em Junho de 1876 em Cincinatti, Ohio, para escolherem o candidato a suceder ao Presidente Ulysses Grant. O Speaker James Blaine, do Maine, era o favorito para obter a nomeação, mas depois de não conseguir vencer nas primeiras votações, o Governador do Ohio, Rutherford B. Hayes, obteve a nomeação à sétima votação. Ciente das divisões no GOP, Hayes prometeu cumprir apenas um mandato. Os Democratas reuniram-se nove dias depois em St. Louis, Missouri para escolherem o seu candidato. Afastados da Casa Branca desde 1960, sentia-se o cheiro a vitória no ar, e mais de cinco mil pessoas reuniram-se para eleger o candidato que os levaria de novo ao poder. A escolha não foi polémica e nomearam Samuel Tilden, o então governador de Nova Iorque. 

 

A economia do país atravessava dificuldades, a Administração Grant tinha enfrentado diversos escândalos de corrupção e os soldados federais ainda estavam estacionados nos estados do Sul. A campanha foi bastante agressiva e cheia de ataques pessoas. O candidato democrata foi acusado de não ter participado na Guerra Civil, enquanto Hayes tinha sido um herói de guerra e ferido várias vezes. Mas 20 anos de poder tinham enfraquecido o Partido Republicano, e Samuel Tilden venceu no voto popular, com 4.288.546 contra os 4.034.311 de Hayes. Depois de contados os votos, chega-se à conclusão que Tilden apenas tinha 184 votos eleitorais, faltando-lhe um voto para ser eleito presidente, enquanto Hayes tinha 165. Nesse momento, quatro estados, que valiam vinte votos eleitorais, estavam com as contagens paradas (Oregon, Carolina do Sul, Louisiana e Florida). Enquanto o Oregon foi resolvido rapidamente a favor de Hayes, nos três estados do Sul o impasse manteve-se. Acusações de fraude de ambos os partidos nestes estados empurraram a decisão para o Congresso.

 

O Senado, controlado pelos republicanos, e Câmara dos Representantes, dominada pelos Democratas, criaram uma comissão bipartidária para resolver o assunto. Composta por sete republicanos e sete democratas e o juiz do Supremo Tribunal de Justiça David Davis, independente. Mas ainda houve um golpe de teatro. Os democratas do Illinois entretanto nomeiam David Davis para o Senado, na esperança de o convencer a votar de acordo com eles na comissão. Mas Davis após essa nomeação retira-se da comissão e é substituído por um juiz do Supremo republicano. A decisão acaba por ser favorável a Rutherford Hayes, que recebe todos os votos eleitorais em disputa. Mas as polémicas eleições ainda não estavam resolvidas. Essa decisão ainda precisava de passar no Congresso. Quase a chegar à data da inauguração, ainda não há desfecho final. É então que os republicanos celebram um compromisso com os Democratas do Sul para verem aprovada a eleição de Hayes. Em troca da retirada das tropas federais dos antigos Estados Confederados, os democratas do Sul votam a favor da decisão da comissão. 

 

Duas notas: Rutherford Hayes só serviu durante um mandato, e foi várias vezes acusado de ter roubado a eleição. "Rutherfraud" B. Hayes e "His Fraudulency" eram alguns dos epítetos que normalmente lhe eram dirigidos. No entanto, o seu mandato foi marcado pela luta anti-corrupção e considerado como um bom presidente. Depois da presidência dedicou-se sobretudo à educação de crianças afro-americanas no Sul. O seu opositor, Samuel Tilden, aceitou o resultado das eleições e também se dedicou a causas humanitárias. Deixou parte da sua fortuna para financiar a Biblioteca Pública de Nova Iorque. 


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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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