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Jul 11
publicado por Nuno Gouveia, às 23:42link do post | comentar

 

Nas eleições primárias de 1980, Ronald Reagan, então com 68 anos, perseguia a sua derradeira oportunidade chegar à Casa Branca. Depois de 1968, onde tinha sido derrotado por Richard Nixon, e de 1976, onde com uma candidatura insurgente contra o Presidente republicano em exercício, Gerald Ford causou forte impressão, em 1980 apresentava-se como o principal candidato da ala conservadora para a nomeação. Pela frente teve importantes referências do Partido Republicano, como o Líder Republicano no Senado, Howard Baker, o senador do Kansas, Bob Dole, o antigo governador do Texas, John Connally, o antigo director da CIA, George H Bush e ainda o congressista do Illinois, John Anderson, que pertencia à moribunda ala "liberal" do partido e que viria a ser candidato independente nessas eleições. Pelo meio, a sombra de Gerald Ford, que várias vezes esteve para avançar para uma candidatura à nomeação. Numa longa corrida, acabou por vencer a nomeação numas primárias cheias de emoção e combatividade, com George H. Bush a ficar em segundo lugar. 

 

A Convenção Nacional Republicana de 1980 realizou-se em Detroit, no estado natal de Gerald Ford. E foi o nome do antigo Presidente que esteve envolvido nesta verdadeira história dramática que envolveu a escolha do candidato a Vice-presidente de Ronald Reagan. Apesar de hoje considerar-se que a vitória de Reagan foi muito fácil, na verdade estas eleições foram muito disputadas e apenas na recta final é que Reagan disparou perante Jimmy Carter. No Verão desse ano, Ronald Reagan era ainda desconsiderado por grande parte das elites políticas e económicas do país, tal como uma boa parte do Partido Republicano. A equipa de Jimmy Carter considerava mesmo que lhes tinha saído a sorte grande com a nomeação do antigo governador da Califórnia. Reagan chega à convenção sem um nome escolhido para seu parceiro, e com uma enorme sombra de dúvidas dentro do próprio partido, que não acreditava nas capacidades do antigo actor de Hollywood. Apesar de Reagan ter liderado o maior estado da União  durante oito anos e ter passado a década de 70 activo na política, o seu nome suscitava ainda desconfiança e descrença. Era nesta nuvem de dúvidas que a equipa de Reagan se deparava.

 

Neste panorama, começou a ser cozinhado nos bastidores um ticket com Reagan-Ford. Os sectores mais centristas do partido, que desgostavam de Reagan, viam no antigo Presidente uma possibilidade de moderar a candidatura e fortalecer a hipótese de vitória. Os conservadores, agastados com esta divisão interna, começaram a ver com bons olhos este ticket para pacificação interna e apresentação de uma candidatura forte perante o país. Ford era hoje muito mais popular do que quatro anos antes, e dava "respeitabilidade" a Reagan. Além disso, estava quase intacto o seu poder no partido, depois de ter sido Presidente. E Ford, apesar de hesitante, começou a mexer os cordelinhos para ser mesmo o candidato a Vice-presidente. Na sua equipa de negociações com o gabinete de Reagan incluíam Henry Kissinger, que desejava ser Secretário de Estado, Dick Cheney e ainda Alan Greenspan, um conselheiro muito próximo de Ford. Apesar das relações tensas entre Reagan e Ford não estarem completamente normalizadas, afinal de contas, quatro anos antes tinham disputado umas primárias muito duras, havia uma cordialidade no trato entre os dois, e reuniram-se no segundo dia da convenção. Reagan perguntou a Ford se estaria disponível a juntar-se a ele, naquele que a imprensa já apelidava de Dream Ticket. Ford pediu tempo para pensar. Reuniu-se com um pequeno grupo de apoiantes, e desde logo, Kissinger aconselhou-o a aceitar. E formou-se uma equipa para negociar com o staff de Reagan. A partir daqui começou a desenhar-se na imprensa a fatalidade do Dream Ticket, com esta equipa negocial a lançar para a comunicação social fugas que davam a entender que o acordo estava feito.

 

O terceiro dia da convenção começava sob o signo da escolha do Vice-presidente. As negociações prosseguiam e parecia inevitável o Dream Ticket. Gerald Ford, como antigo Presidente, começou a fazer exigências consideradas exageradas pela equipa de Reagan. Aquilo que propunham não era o normal para um Vice-Presidente. Pediam a escolha directa de alguns cargos (Henry Kissinger como Secretário de Estado, por exemplo), poder de veto para Ford em relação às nomeações de Reagan, ou seja, uma verdadeira partilha do poder. E começaram a surgir as dúvidas nos homens de Reagan, que viam neste acordo uma verdadeira ameaça à liberdade de uma hipotética presidência Reagan. A  co-presidência começou também a ser falada pela imprensa, e o próprio Ford parecia menos interessado no cargo do que os seus conselheiros e continuava mostrar-se hesitante no seu circulo de apoiantes. O dia aproximava-se do fim e Ronald Reagan tinha de fazer uma opção. Às 19h15 desse dia, Gerald Ford, em entrevista a Walter Cronkite, referia que se fosse mesmo candidato a VP, iria ter um papel muito importante na governação. Ronald Reagan ficou pálido ao ver a entrevista, com Ford a admitir mesmo uma presidência partilhada. Acredita-se que depois de ver esta entrevista, Reagan decidiu que Ford não seria o escolhido. No entanto, durante a noite as negociações continuaram, e várias televisões deram como certa a escolha de Gerald Ford. No hall da convenção, o entusiasmo crescia com o Dream Ticket. Mas os homens de Reagan iam recusando as exigências da equipa de Ford, sinalizando que esta não seria a opção do nomeado republicano. Por volta das 23h30, Ford dirigiu-se à suite onde estava Ronald Reagan e anunciou formalmente a sua recusa em ser o candidato a Vice-presidente. Foi uma conversa que durou cinco minutos, mas Reagan já sabia quem iria escolher. 

 

Nesta mesma noite um desiludido George H. Bush discursou perante a convenção e preparava-se para abandonar Detroit. Apesar de momentos muito tensos com Ronald Reagan durante as primárias, o graduado de Yale e típico republicano da Costa Leste aspirava secretamente ser escolhido para VP. À mesma hora que Reagan e Ford falavam, George H. Bush estava no hall do seu hotel a beber uma cerveja com os seus filhos Jeb e George W. Às 23h37 recebia uma chamada de Ronald Reagan na sua suite. "I'd be honored, Governor" foi a resposta de George H. Bush ao convite de Reagan. Um jornalista ainda antes da meia noite anunciava ao mundo: "Not Ford. It's Bush!". Uma convenção que tinha até então decorrido sob o signo da incerteza e do caos ganhava finalmente um candidato a Vice-presidente. E o resto foi história. 

 

*Esta magnífica história é contada em pormenor no livro "Rendevouz with Destiny, Ronald Reagan and the Campaign that changed America", de Craig Shirley. 


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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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