04
Mai 16
publicado por Nuno Gouveia, às 20:34link do post | comentar | ver comentários (10)

A democracia liberal americana sofreu um duro revés com um dos seus dois maiores partidos a ser capturado por um populista demagogo como Donald Trump. Não tenhamos ilusões: este já não é o partido de Reagan e a partir de agora será uma outra coisa bem diferente. Resta saber se em caso de derrota em Novembro se poderá salvar ou continuará com esta linha. Tudo permanece incerto e não me arrisco a fazer prognósticos. A nomeação garantida ontem por Trump marca o fim de uma era no Partido Republicano, marcada pelo conservadorismo social, liberalismo económico e uma ideia de Estados Unidos intervencionista no mundo. Donald Trump não é conservador, não respeita a liberdade económica e a sua posição externa dependerá muito dos seus estados de alma. Como dizia há dias um conservador americano, o Partido Republicano de Trump é algo muito semelhante à Frente Nacional, com um discurso xenófobo e misógino, contra os estrangeiros e tudo o que "cheire" a diferente. Tanto tomará posições à esquerda, como no proteccionismo económico que tem vindo a defender, como radizalizará à direita, como são as suas posições demagogas sobre os imigrantes.

 

Donald Trump "suspendeu" o Partido Republicano moderno. É verdade que nos últimos anos, o radicalismo tomou conta de várias franjas do partido, e havia vários sinais disso. Mas se atentarmos aos dois últimos nomeados, a liderança do partido não tinha mudado assim tanto. John McCain e Mitt Romney não eram assim tão diferentes, em termos ideológicos, de Ronald Reagan ou dos Bush, os três últimos presidentes republicanos. Mas o que se passou nestas primárias foi um verdadeiro filme de terror com esta mudança radical na liderança do GOP, que concretizou os sintomas dos últimos anos: figuras com Sarah Palin e Michele Bachmann chegaram a ser imensamente populares na base do partido; apresentadores radicais de rádio, como Sean Hannity, Rush Limbaugh ou Laura Ingraham são vozes autorizadas na base do partido. A grande surpresa foi que estes que se clamavam representantes do "verdadeiro conservadorismo" não apoiaram o candidato que aspirava a ser o verdadeiro conservador nas primárias, o senador Ted Cruz. Não, os mesmos que juraram durante anos fidelidade ao verdadeiro conservadorismo acabaram por apoiar um antigo democrata que doara centenas de milhares de dólares aos democratas e aos Clinton, e que sempre assumira posições contra os conservadores até há bem poucos anos. Os demagogos e os puristas são sempre assim: o seu oportunismo acaba sempre por se revelar. 

 

O Partido Republicano partiu para esta campanha eleitoral cheio de esperanças depois da vitória eleitoral nas eleições intercalares de 2014. Depois de oito anos de Barack Obama na Casa Branca, as expectativas de recuperar a Presidência eram legítimas. Um partido cheio de novas caras capazes de entusiasmar a sociedade americana: desde o jovem descendente de cubanos, Marco Rubio ao governador estrela do “blue state” Wisconsin que tinha “dobrado” a espinha aos sindicatos e ganho três eleições em quatro anos, Scott Walker. Ao lado, candidatos credíveis e tradicionais, como Jeb Bush, do poderoso clã que já deu dois presidentes à América, e John Kasich, o influente e popular governador do Ohio. Historicamente, as perspetivas eram ainda melhores. Desde a saída de Harry Truman em 1952 que o Partido Democrata não consegue ter dois presidentes consecutivos e desde então, apenas uma vez um partido venceu três eleições consecutivas, entre 1980 e 1988, com Ronald Reagan e George H. Bush. Do outro lado, uma agastada Hillary Clinton, afetada por diversos escândalos, era a única candidata viável, depois de oito anos de Obama em que a única “estrela” que apareceu, Elisabeth Warren, rapidamente anunciou que não seria candidata. Estava tudo reunido para o que o Partido Republicano tivesse fortes hipóteses de vencer as eleições presidenciais de 2016, com um candidato credível e capaz de regenerar um partido ainda agastado pela presidência de George W. Bush. 

 

Se depois do que aconteceu nos últimos meses, não digo que Trump está destinado a ser derrotado (devemos aprender lições do passado), mas ele parte para estas eleições muito fragilizado, sendo o candidato mais impopular de sempre a chegar às eleições gerais e parte muito atrás de Hillary Clinton, como indicam quase todas as sondagens. Mas este Partido Republicano de Trump não é conservador nem liberal (no sentido americano). É populista e demagogo, e agirá sempre de acordo com os estados de alma de Trump. E nada é mais perigoso que um grande partido num grande país ser dominado por um populista. 

 

PS: Com a nomeação de Trump, veremos muitos que o renegaram nestes últimos meses a colocarem-se atrás dele. A vida partidária é assim mesmo.

 


publicado por Alexandre Burmester, às 15:25link do post | comentar | ver comentários (3)

 

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E, finalmente, o adjectivo "inevitável" aplica-se sem discussão a Donald Trump. Ao vencer a primária do Indiana, um estado, do ponto de vista teórico,  geográfica e demograficamente adverso às suas pretensões, e por uma clara margem de 53%-37% sobre Ted Cruz, Trump terminou efectivamente com a discussão, e Cruz, inclusivamente, retirou-se da corrida.

 

No último mês, mas particularmente nas duas últimas semanas, houve uma clara deslocação de intenções de voto entre os republicanos para o magnata dos casinos. Até à primária de Nova Iorque, a 17 de Abril, Trump nunca conseguira atingir os 50% dos votos, pelo que se argumentava que ele tinha um limite entre os 35% e os 40%, e que era beneficiado pelo facto de não enfrentar uma oposição unida, o que era verdade e tinha especial incidência nos estados que atribuem a totalidade dos seus delegados ao vencedor da respectiva primária . Pode argumentar-se que Nova Iorque e os cinco estados que votaram na semana passada faziam parte do hinterland de Trump, em particular Nova Iorque, seu estado natal e de residência. Mas o Indiana é um caso completamente diferente.

 

A que ficou, então, a dever-se esta súbita mudança de uma parte substancial do eleitorado republicano? A primeira, e mais óbvia, explicação, é esse eleitorado ter-se finalmente rendido à mensagem e discurso de Trump. Será uma explicação óbvia, mas não me parece a mais provável ou a mais importante. É difícil tanta gente mudar de opinião em tal matéria em tão pouco tempo. Provavelmente, outros factores tiveram mais peso. Desde logo, a famosa dinâmica da campanha, o momentum. Não só Trump venceu os seis estados atrás referidos, como o seu principal opositor ficou em terceiro em cinco deles. Nesta fase das primárias, ficar em terceiro não é propriamente a maneira mais fácil de mobilizar o respectivo eleitorado. E a percepção da dinâmica de uma competição é muito importante. Ted Cruz terá errado ao empenhar-se pouco nas campanhas nesses estados, pensando que os eleitorados de primárias posteriores seriam imunes aos respectivos resultados. Porque não há muitas dúvidas de que, se a primária do Indiana tivesse tido lugar há três semanas, por exemplo, Trump dificilmente a teria ganho e, muito provavelmente, tê-la-ia perdido, tal como perdera, e com clareza,  no Wisconsin. A juntar a isto, temos o cansaço do eleitorado com o arrastar da decisão sobre quem seria o candidato republicano e, talvez mais importante, a aversão de muitos a uma convenção disputada, especialmente a uma na qual o candidato com mais votos e delegados poderia vir a ver-lhe negada a nomeação. E as notícias sobre a luta surda na angariação de delegados, na qual o campo de Ted Cruz estava a ser muito bem sucedido, podem ter criado no eleitorado a sensação de que a importância dos seus votos estava a ser secundarizada, em favor dos jogos de bastidores.

 

Seja como for, e embora Trump esteja ainda aquém da maioria dos delegados vinculados, isso trata-se agora de uma questão académica. John Kasich, curiosamente, ainda nada disse sobre o resultado de ontem, mas mesmo que se mantenha na corrida, não se afigura que consiga travar a marcha imparável de Trump para a nomeação automática.

 

A questão agora será essencialmente até que ponto os republicanos, muitos dos quais detestam Trump visceralmente, serão capazes de se unirem em torno da sua candidatura. O único factor capaz de conseguir tal feito será o nome da candidata democrática, a qual atinge níveis de repulsa entre o eleitorado republicano que, em comparação, fazem de Trump popularíssimo. Diga-se que não há memória de dois candidatos com índices negativos tão grandes entre o eleitorado geral.

 

Finalmente, a habitual palavra para Bernie Sanders, cuja campanha insurreccional não tem tido o devido destaque, principalmente por causa do inusitado fenómeno-Trump. Mais uma vez desafiando as sondagens, Sanders venceu o Indiana (53%-47%). E há dias garantiu que a convenção democrática será uma convenção contestada, pois não está disposto a abandonar a corrida, e o grande número de super-delegados na convenção democrática está a impedir a antiga Secretária de Estado de garantir a maioria antes da convenção, devido também, claro, ao forte desempenho de Sanders.


02
Mai 16
publicado por Alexandre Burmester, às 16:17link do post | comentar | ver comentários (1)

 

 

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Desde as mais recentes vitórias de Donald Trump - as obtidas em seis primárias no Nordeste - que se vem notando uma atmosfera de resignação, de alto a baixo, no Partido Republicano. O fervor anti-Trump de semanas anteriores parece estar a abater, e uma espécie de realismo, também em nome da unidade do partido, começa a fazer-se sentir.

 

Efectivamente, a até agora escassa lista de apoiantes de Donald Trump entre a elite republicana, embora continue magra, tem tido a adição de alguns membros da Câmara dos Representantes, a qual, ao que consta, poderá vir a aumentar no caso de uma vitória do magnata novaiorquino na primária de amanhã no Indiana. E na crucial luta pelos delegados em caso de convenção aberta - uma a que nenhum candidato chega com a maioria dos delegados - alguns dos que pareciam firmes no campo de Ted Cruz, parecem estar  agora a oscilar.

 

A invulgar indecisão da campanha das primárias - há 40 anos que não há uma convenção aberta - estará já a saturar muita gente no G.O.P., e muitos, mesmo sem particular entusiasmo pelo homem que lidera a corrida, parecem estar a coalescer em torno dele, basicamente porque desejam evitar uma convenção caótica que poderia afectar seriamente a unidade do partido para as eleições de Novembro. E isto, mesmo perante a possibilidade de uma nomeação de Trump poder não só significar uma derrota pesada, como colocar em risco a maioria republicana no Senado, cerca de um terço do qual será renovado em Novembro, sendo a maioria dos lugares em disputa actualmente detida por republicanos, muitos deles eleitos na onda anti-Obama de 2010 (os mandatos no Senado são de seis anos).

 

Recentemente, Trump tem adoptado uma postura mais moderada, do ponto de vista retórico e em comparação com os seus anteriores padrões, e até apresentou a sua visão sobre política externa a convite do Center for the National Interest (CFTNI), o antigo Nixon Center, um think-tank criado por Richard Nixon e Henry Kissinger em defesa do "realismo" em política externa, em contraste com os intuitos mais belicistas dos neoconservadores. Ou seja, parte do establishment, mesmo estando longe de estar convencido das qualidades de Trump e das suas possibilidades eleitorais em Novembro, parece estar a adoptar uma atitude apenas realista perante ele. Diga-se, contudo, que a diferença de Trump para Hillary Clinton, num hipotético confronto entre os dois em Novembro, tem vindo a cair, havendo até sondagens recentes que os colocam praticamente lado a lado, uma das quais apurou haver mais democratas dispostos a votarem em Trump, que republicanos em Clinton.

 

Por trás do "novo Trump" e dos seus ganhos entre o establishment está o dedo do seu mais recente guru, Paul Manafort , um homem que, positivamente, não brinca em serviço, e que será talvez a única pessoa capaz de fazer eleger o magnata. Entre os seus clientes contaram-se Mobutu Sese Seko, Ferdinand Marcos, Teodoro Obiang e Viktor Yanukovych, não propriamente uma galeria de democratas, mas um símbolo da atracção exercida pelas artes mágicas de Manafort. Mais prosaicamente, Gearld Ford, Ronald Reagan, ambos os Bush e John McCain também recorreram aos seus serviços.

 

Outro factor importante nesta aparente aquiescência do establishment republicano, ou de parte dele, em torno de Trump é a alternativa: Ted Cruz. É que, de facto, para muitos membros do tão decantado establishment, trata-se de um caso de "venha o diabo e escolha", pois o senador texano é uma figura que colhe a quase unanimidade em termos de (im)popularidade nesse meio, nomeadamente entre os seus colegas do Senado, altamente críticos das suas tácticas naquela assembleia. Além disso, Cruz é a personificação do político apoiado pelo Tea Party, uma entidade que conta nas suas características uma feroz oposição ao status quo de Washington. Isso, contudo, também lhe garante uma vasta rede de operacionais no terreno, para os quais o purismo ideológico conservador transcende a unidade do partido e Donald Trump é um verdadeiro anátema.

 

O próximo combate, no Indiana, será decisivo para Cruz. Os últimos números das sondagens são pouco propícios às suas aspirações, mesmo depois do seu acordo com John Kasich e da sua escolha de Carly Fiorina para "running mate". A partir de 4ª feira, Trump poderá tornar-se mesmo "inevitável". E daí...

 

 


28
Abr 16
publicado por Alexandre Burmester, às 16:33link do post | comentar

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No domingo passado, as campanhas de Ted Cruz e John Kasich anunciaram uma espécie de acordo com especial incidência na primária do Indiana no próximo dia 3 (o acordo também se estende ao Novo México e ao Oregon, mas a atribuição proporcional de delegados nesses dois estados torna-o menos importante aí). Essa súbita aliança foi por muitos interpretada como sinal de desespero das duas campanhas nos seus esforços em barrarem o caminho a Donald Trump.

 

Entretanto, tiveram lugar cinco primárias em estados do Nordeste, todas ganhas por Trump com larga vantagem. Nada de imprevisível sucedeu nessas eleições, mas a "narrativa" é sempre influenciada pelos resultados eleitorais, com a tendência e tentação dos media em utilizarem adjectivos como "inevitável", "imparável", etc., para descreverem a campanha do vencedor.

 

E ontem, num comício em Indianapolis, Cruz sacou, digamos assim, um coelho da cartola: numa acção sem precedentes a esta distância da convenção, especialmente para um candidato que não lidera a corrida, anunciou Carly Fiorina como sua escolha para candidata a Vice-Presidente, no caso de ser ele o nomeado republicano.

 

É fácil classificar esta iniciativa como "desesperada" (o que não quer dizer que o não seja, claro), mas será mais interessante tentar analizar-se o que Fiorina poderá trazer ou não à campanha de Cruz. Foi CEO da Hewlett-Packard (com um desempenho sobre o sofrível, segundo muitas opiniões), candidata derrotada ao Senado pela Califórnia em 2010 (estamos, contudo, a falar de um estado cada vez mais dominado pelos democratas) e foi um dos inúmeros candidatos republicanos no início das primárias deste ano. Nos debates, deixou boa impressão e foi um dos primeiros republicanos a atacarem Trump seriamente (também tinha sido uma das primeiras vítimas da língua viperina do bilionário novaiorquino, diga-se). Debate bem, tem uma visão positiva das coisas e é conservadora. Mas, tirando uns breves instantes depois dos primeiros debates em que participou, a sua popularidade nunca foi grande, e acabou por desistir depois de um desempenho fraco no New Hampshire. Em Março declarou o seu apoio a Ted Cruz, e desde então tem feito campanha pelo senador do Texas. E, claro, é mulher e é da Califórnia, e isso decerto terá pesado na decisão de Cruz, embora o peso de Fiorina no eleitorado californiana seja duvidoso.

 

Não creio que esta escolha possa ter algum peso importante na primária do Indiana, mas é possível que, apesar de tudo, algum venha a ter na da Califórnia, a 7 de Junho. Além disso, se Cruz for o nomeado republicano, Fiorina poderá ser útil na campanha contra Hillary Clinton, que poderá atacar sem correr o risco de imediatamente receber como resposta o epíteto de "sexista".

 

Richard Nixon, um homem que sabia muito destas coisas, disse um dia que um candidato vice-presidencial pouco pode favorecer uma candidatura presidencial, mas em contrapartida, pode prejudicá-la grandemente. Não me parece que Fiorina possa vir a cair na segunda categoria, mas quanto à primeira, estou com Nixon. Mas, essencialmente, a oportunidade da sua escolha tem em vista o que resta das primárias e a luta pela nomeação.


27
Abr 16
publicado por Alexandre Burmester, às 13:53link do post | comentar

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 Indiana Wants Me

 

E depois das primárias de ontem, em cinco estados do Nordeste, tudo parece ir depender do Indiana, mais para os opositores de Donald Trump que para ele próprio, diga-se

 

Os resultados no campo republicano no Connecticut, Delaware, Maryland, Pensilvânia e Rhode Island não fugiram ao previsto, embora, tal como na semana passada em Nova Iorque, Trump tenha excedido as percentagens previstas. E confirmou-se a maioria dos votos nos cinco estados, à semelhança de Nova Iorque, que tinha sido o primeiro estado onde tal ele conseguira. O bilionário novaiorquino conseguiu entre os 54% de votos (Maryland) e os 64% (Rhode Island). Nesta altura das primárias, estes números não são invulgares, sendo até por vezes excedidos, sendo sempre, contudo, de assinalar. Sucede que, este ano, as características sui generis, digamos assim, do candidato que lidera a corrida republicana tem feito com que o eleitorado demore a coalescer no apoio a ele.

 

Do ponto de vista estrito da aritmética, Trump não prejudicou, obviamente, as suas possibilidades de vir a alcançar a maioria dos delegados, mas também não as melhorou significativamente. As suas vitórias nos estados que ontem votaram tinham sido  basicamente tomadas em consideração nos cálculos de Nate Silver do site analítico FiveThirtyEight sobre o número de delegados que ele precisa de ir angariando para atingir essa maioria. Está agora ligeiramente à frente dos números que precisa de ir alcançando, e recuperou dos danos que sofrera em Wisconsin e Colorado.

 

E é aqui que entra o Indiana, que vota no próximo dia 3, e onde estão em disputa 57 delegados, atribuídos na totalidade ao vencedor(es) no estado (30) e nos seus nove círculos eleitorais (3 por círculo, num total de 27). Há duas semanas, tudo indicava que Ted Cruz venceria o estado. As poucas sondagens entretanto realizadas dão uma curta vantagem a Trump, e daí, muito provavelmente, o motivo do recente pacto entre Cruz e John Kasich, dando ao primeiro um caminho mais livre para a vitória. Esta tornou-se agora imperativa para o senador pelo Texas. Para Trump, uma derrota não será necessariamente definitiva, mas dificultará bastante o seu caminho para os 1.237 delegado, podendo inclusivamente indicar dificuldades em estados como o Nebrasca, que votará mais tarde no mês de Maio.

 

Uma incógnita saída das eleições de ontem é o que farão os 54 delegados não-vinculados eleitos na Pensilvânia, estado que tem um modelo de selecção de delegados que difere bastante dos restantes, pois apenas 17 dos seus 71 delegados ficam vinculados (e Trump ganhou-os todos). Estes 54 militantes republicanos poderão vir a ter uma decisiva palavra sobre se haverá ou não maioria de Trump na convenção. 

 

Finalmente, no que respeita aos republicanos, a velha questão da "dinâmica" da campanha (o famoso "momentum"). Trata-se de um naco de sabedoria convencional, basicamente, mas a verdade é que, este ano, tal dinâmica tem sido ilusória: já houve momentos em que Trump parecia imparável, para pouco tempo depois sofrer reveses, dos quais, como nestas duas semanas, viria a recuperar. Não me parece, portanto, que, pelo menos este ano, a dinâmica seja um factor muito importante, dadas as características muito especiais desta disputa republicana. Acresce que, tanto ontem como em Nova Iorque, a afluência republicana foi mais baixa do que tinha sido até aqui, o que poderá muito bem significar que parte do eleitorado anti-Trump, já ciente das inevitáveis vitórias deste, ainda por cima em estados que, na sua maioria, atribuíam os delegados todos ao vencedor, terá ficado em casa. Ora este factor não se aplicará no Indiana, onde a luta promete ser renhida e a afluência deverá retomar níveis anteriores.

 

Quanto aos democratas: Hillary Clinton venceu quatro dos cinco estados (a excepção foi Rhode Island) e prossegue o seu paulatino caminho para a nomeação. Não há qualquer dúvida plausível sobre quem será o candidato do partido simbolizado pelo burro. Isso não impedirá, contudo, o combativo Bernie Sanders de continuar na corrida.

 

 

* Com permissão de R. Dean Taylor

 

 


25
Abr 16
publicado por Alexandre Burmester, às 21:45link do post | comentar

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O Senador Ted Cruz e o Governador John Kasich anunciaram no domingo um acordo que tem o óbvio objectivo de impedir Donald Trump de alcançar a maioria dos delegados à convenção republicana: Kasich não fará mais campanha no Indiana (que vota a 3 de Maio) e Cruz retribuirá na mesma moeda no Novo México e no Oregon (17 de Maio e 7 de Junho, respectivamente).

 

Basicamente, a questão é esta: o Indiana atribui os seus delegados (57) ao vencedor a nível do estado e dos seus círculos eleitorais. Uma derrota aí, impossibilitará praticamente Trump de atingir o número mágico. Houve, até agora, poucas sondagens no "Hoosier State", mas a média das que houve dá uma ligeira vantagem a Trump, ultrapassável nem que apenas metade dos que dizem tencionar votar em Kasich vire o seu voto para Cruz.

 

Este acordo Cruz-Kasich não deixa, contudo, de ser ambíguo, pois o Governador do Ohio já declarou contar na mesma com os seus votos no Indiana, apenas suspendendo a sua campanha naquele estado. No Novo México e no Oregon a atribuição de delegados é proporcional, pelo que aí o impacto da "ausência" de um dos dois candidatos será menor.

 

Para alguns, nomeadamente o campo de Trump, trata-se de uma manobra desesperada; para outros, mormente gente chegada ao movimento #NeverTrump, só peca por tardia.


22
Abr 16
publicado por Alexandre Burmester, às 16:00link do post | comentar

 

 

 

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Por entre a refrega de primárias, "caucuses" e debates (estes já uma coisa distante, embora o Republican National Committee esteja a considerar a organização de mais algum ou alguns) uma outra campanha, a que poderia chamar-se "a campanha silenciosa", vem tendo lugar, discretamente e voando sob os radares. Trata-se da luta pela angariação de delegados, essencialmente perante a ainda forte possibilidade de nenhum candidato (ou seja, Donald Trump) chegar a Cleveland com a maioria deles (o já famoso número de 1.237).

 

No primeiro escrutínio na convenção quase todos os 2.472 delegados têm de votar no candidato a que estão vinculados pelo resultado da primária ou "caucus" do seu estado. Mas, a partir do segundo escrutínio, quase todos eles ficam livres de votarem em quem quiserem (as regras não são uniformes de estado para estado). E é esta a "campanha silenciosa": tentar conquistar delegados para o segundo escrutínio e escrutínios seguintes, se vierem a ter lugar. 

 

Nesta batalha surda pela conquista de delegados, a campanha de Ted Cruz tem sido considerada a mais eficaz, organizada e profissional. Inclusivamente, em estados que não organizam primárias nem "caucuses", mas escolhem os seus delegados através de convenções, Cruz tem tido assinalável sucesso, como no Colorado e no Wyoming (e estes são delegados já garantidos por Cruz para o primeiro escrutínio). Do mesmo modo, em estados ganhos por Trump, como Louisiana e Carolina do Norte, o senador pelo Texas terá já garantido um bom número de delegados para o segundo escrutínio. A verdade é que o delegado típico é um militante de base e activo no partido, o que está longe de corresponder ao perfil do apoiante médio de Trump, ou seja, muitos delegados vinculados a Trump poderão abandoná-lo alegremente a partir do segundo escrutínio.

 

O que atrás ficou dito reforça a necessidade de Trump vencer no primeiro escrutínio para conseguir ser o nomeado. Essa tarefa não é impossível, mesmo se partirmos do princípio de que o magnata novaiorquino não alcançará os 1.237 delegados. É que haverá entre 100 a 200 delegados não-vinculados, mesmo no primeiro escrutínio, e se Trump não ficar muito aquém dos 1.237 antes da convenção, decerto não lhe será impossível convencer um número suficiente desses delegados não-vinculados a votarem nele. É aqui que entra a questão da organização e profissionalismo da campanha, e nesse sentido, Trump contratou recentemente para seu director na convenção e responsável pela angariação de delegados o veterano consultor republicano Paul Manafort, que conta no seu currículo actividades semelhantes ao serviço de Gerald Ford, Ronald Reagan, George H. W. Bush, Bob Dole, George W. Bush e John McCain (já para não falar no ex-presidente da Ucrânia Viktor Yanukovych - Manafort é um sujeito eclético). O palmarés de Manafort é excelente, mas resta saber se não terá chegado tarde de mais à campanha de Trump (no seu peculiar estilo, já declarou que Trump conseguirá 1.400 delegados antes da convenção).

 

Mas nada do que atrás ficou dito garante que Ted Cruz, uma vez conseguido o objectivo de impedir Donald Trump de vencer ao primeiro escrutínio, vença ele ao segundo. É que, muitos dos delegados que com ele têm vindo a comprometer-se, considerarão tal compromisso apenas numa óptica de um frentismo anti-Trump, e se virem que Trump está definitivamente derrotado, poderão também largar Cruz e votar noutro candidato. É nisto que residirá a estratégia de John Kasich, o qual, mais de um mês depois da desistência de Marco Rubio, ainda tem menos delegados que este (ficou, contudo, em segundo lugar - embora distante - em Nova Iorque e poderá conseguir outros segundos lugares nas primárias do Nordeste da próxima semana, embora isso não seja certo). Isto, claro, se a regra que vigorou na convenção de 2012, segundo a qual só poderia ser nomeado um candidato que tivesse vencido oito primárias ou "caucuses", não for incluída nas regras da convenção deste ano. E quem fala em John Kasich, poderá também falar num outro hipotético candidato à nomeação, que surja na convenção perante um impasse na mesma.

 

As primárias republicanas de 2016 podem já estar a saturar uma boa parte do eleitorado, mas os "political junkies" estão a ter um ano em cheio.

 

 


20
Abr 16
publicado por Alexandre Burmester, às 18:37link do post | comentar

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A primária do Estado de Nova Iorque não trouxe propriamente surpresas. Mas a verdade é que, pela primeira vez, Donald Trump conseguiu a maioria dos votos num estado, com uns retumbantes 61% (não é de menosprezar o factor casa) e pelo menos 89 dos 95 delegados em disputa. Este número de delegados está em linha com o que o site analítico FiveThirtyEight calcula seja necessário Trump ir angariando para conseguir uma maioria, ou seja, esta sua vitória não melhorou nem piorou as suas perspectivas do ponto de vista estrito dos números.

 

Na próxima terça-feira, há mais uma série de primárias em estados do Nordeste, onde são previsíveis novos sucessos de Trump: Connecticut, Delaware, Maryland, Pensilvânia e Rhode Island. Estarão em disputa um total de 172 delegados, com o importante pormenor, contudo, de o prémio maior, a Pensilvânia, apenas vincular ao vencedor no estado 17 dos seus 71 delegados, sendo os restantes livres de votarem como entenderem na convenção. É verdade que um bom número dos potenciais delegados deste último estado já disse que votará no vencedor, mas daqui até Cleveland muita água passará debaixo das pontes.

 

Depois da próxima semana, as hostilidades serão retomadas numa primária que promete ser decisiva para as aspirações de Trump: Indiana e seus 57 delegados, a 3 de Maio. Uma vitória de Ted Cruz aqui (os delegados vão inteiramente para o vencedor em cada círculo eleitoral) será um sério e quase definitivo revés para o magnata novaiorquino na sua luta pelo mágico numero de 1.237 delegados. E o Indiana tem algumas semelhanças com o Wisconsin (e o mesmo método de atribuição de delegados), onde Cruz conquistou 36 dos 42 delegados em disputa. Não tem havido sondagens públicas no "Hoosier State", mas aparentemente há sondagens privadas que colocam Trump pouco acima dos 30%. A luta pela nomeação republicana ainda vai dar muito que falar.

 

Hillary Clinton, por seu lado, teve, além de uma vitória folgada (58%-42%) uma firme confirmação da inevitabilidade da sua nomeação. Mais uma vez, Bernie Sanders continuará na corrida, naquilo que é há muito uma luta inglória, mas valorosa.

 

 

Foto: Donald Trump após a sua vitória em Nova Iorque (Reuters/Shannon Stapleton)

 

 


19
Abr 16
publicado por Alexandre Burmester, às 17:49link do post | comentar

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Realiza-se hoje a primária do estado de Nova Iorque, tanto do lado Republicano, como do lado Democrático. Esta primária, juntamente com as que se realizam na próxima semana (Connecticut, Delaware, Maryland, Pensilvânia e Rhode Island) disputa-se em terreno favorável a Donald Trump, que deverá emergir com um bom pecúlio de delegados, embora isso, muito provavelmente, não lhe venha a resolver o problema de chegar à convenção de Cleveland sem a maioria.

 

Em anos normais, por esta altura já está decidido o vencedor de cada partido, mas este ano, dado o facto de nenhum republicano ter conseguido impôr-se e de Bernie Sanders ter tido uma galharda e imprevista campanha, as coisas, do lado republicano, estão longe de estar decididas e, do lado democrático, embora na prática estejam, a campanha continuará até ao fim.

 

Isto faz com que primárias a que normalmente pouca gente prestava atenção, por já nada decidirem, estejam este ano a ser foco de atenções concentradas. Nunca tanta gente esteve a par das peculiaridades e características próprias das primárias de cada estado.

 

Nova Iorque atribui os seus delegados do seguinte modo: três por cada círculo eleitoral da Câmara dos Representantes. O estado tem 27 círculos eleitorais. O vencedor em cada círculo ganha dois delegados, e o segundo classificado ganha um. Contudo, se o vencedor tiver pelo menos 50% dos votos, açambarcará os três delegados. Do mesmo modo, os candidatos que não atinjam 20% dos votos, não terão direito a qualquer delegado. Além disso, são atribuidos proporcionalmente  14 delegados a nível do estado, aplicando-se também aqui a regra dos 50% e dos 20%.

 

O eleitorado republicano está concentrado nas áreas do chamado "Upstate New York", a norte de Nova Iorque, mas cada círculo atribui três delegados indepndentemente do número de republicanos nele registados. Isso significa que, por exemplo, em áreas maciçamente democráticas da cidade de Nova Iorque, como o Bronx, umas centenas de republicanos podem ser fulcrais na decisão local.

 

Donald Trump é o claro favorito republicano. A questão está em saber se atingirá os 50% (a maior parte das sondagens dizem que sim) e quantos cícrculos eleitorais vencerá.

 

 

Do lado democrático, pese embora ser de esperar um razoável desempenho de Bernie Sanders, Hillary Clinton é a clara favorita. Em todas as primárias democráticas vigora o sistema de atribuição proporcional de delegados.


06
Abr 16
publicado por Alexandre Burmester, às 17:30link do post | comentar

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As primárias de ontem no Wisconsin terão, pelo menos num aspecto, sido decisivas: é cada vez mais difícil Donald Trump obter a maioria dos delegados até ao final das primárias republicanas, a 7 de Junho, na Califórnia.

 

Até há cerca de um mês, Trump era o favorito para vencer este estado mas, entretanto, uma série de episódios degradantes para a sua imagem e, a meu ver principalmente, a saída de Marco Rubio da corrida, alteraram as coisas. No final, Ted Cruz obteve uma vitória sólida (48% contra 35% de Trump e 14% de John Kasich) e conquistou 36 dos 42 delegados do estado. 

 

Dado que a obtenção de uma maioria de delegados por Trump será sempre uma tarefa árdua, o facto de aqui ter ficado aquém do até há pouco previsível (o site de análise e estatística fivethirtyeight , por exemplo, chegou a atribuir-lhe 25 delegados) só poderá ter complicado essa tarefa. Acresce a isso a excelente e minuciosa operação no terreno da campanha de Ted Cruz, que vem "trabalhando" os delegados de Trump, com vista a obter o seu apoio a partir do segundo escrutínio da Convenção de Cleveland (e, muitos deles, diga-se, não se farão rogados em desertarem o campo do magnata de Nova Iorque, ao qual só estão ligados no primeiro escrutínio por obrigação regulamentar).

 

A vitória de Ted Cruz não foi apenas significativa pelo momento e pela margem, mas também pelo domínio do senador pelo Texas em várias faixas demográficas onde normalmente não tem ganho. Isto poderá significar uma de duas coisas: ou que o eleitorado republicano anti-Trump está a convergir em Cruz, ou que está a votar tacticamente, podendo noutras corridas tidas como mais propícias a John Kasich mudar o seu voto para o Governador do Ohio. Inclino-me mais para a primeira hipótese.

 

Segue-se, no dia 19, o estado de Nova Iorque, terreno favorável a Donald Trump, mas onde os delegados são atribuídos, grosso modo, proporcionalmente, o que poderá permitir a Cruz e Kasich limitarem os desgastes de uma previsível vitória do novaiorquino.

 

No campo democrático, mais uma vitória - a sétima nas últimas oito eleições - para Bernie Sanders. O seu contínuo bom desempenho já fez também alterar a perspectiva dos seus apoiantes. O director de campanha, Jeff Weaver, declarou hoje que, "super-delegados" à parte, nem Sanders nem Hillary Clinton chegarão a Filadélfia, local da respectiva convenção, com a maioria dos delegados e que "os super-delegados não contam até votarem e só votam quando chegarem à convenção. Portanto, será uma convenção aberta".  

 

Um ano muito especial, portanto, este ano presidencial de 2016.


27
Mar 16
publicado por Alexandre Burmester, às 14:46link do post | comentar | ver comentários (7)

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Na semana passada Bernie Sanders venceu os estados de Idaho e Utah com votações que andaram perto dos 80% (e perdeu o Arizona com 40%); ontem, o senador pelo Vermont conseguiu este impressionante desempenho: Alasca 82%, Havai 70% e Washington (estado) 73%. 

 

No cômputo destas seis eleições, Sanders angariou mais delegados vinculados que a sua adversária Hillary Clinton, mas sem fazer grande mossa na vantagem da antiga Secretária de Estado (a atribuição de delegados pelo estado de Washington não está ainda concluída, contudo, e era aí que ontem se atribuía a esmagadora maioria de delegados). Há também um importante busílis para Sanders: é que, além dos delegados vinculados, o sistema das primárias democráticas nomeia um número não desprezável dos chamados super-delegados, delegados não vinculados, independentemente dos resultados eleitorais, num total que ronda os 700, ou seja, cerca de um terço do total de delegados necessários a uma maioria na convenção do partido. Estes super-delegados representam basicamente a máquina do partido e têm alinhado esmagadoramente com Clinton: até agora, 469 para ela e apenas 29 para Sanders.

 

É certo que, super-delegados à parte, Clinton conseguiu até agora mais votos que Sanders - ela própria recentemente realçou isso, ao dizer, inclusivamente, que, entre os candidatos de ambos os partidos, é ela quem mais votos até agora angariou. Isso é um facto, mas também em 2008 ela conseguiu mais votos que o então Senador Barack Obama, mas este, ao concentrar os seus esforços nos "caucuses" (onde a participação é menor que nas primárias propriamente ditas), ganhou a maioria dos delegados. Sanders tem tido um especialmente bom desempenho precisamente nos "caucuses", e Clinton ganhou a vantagem que tem essencialmente devido ao seu robusto desempenho nos estados do Sul. Quanto ao facto de a antiga Primeira Dama ter até agora mais votos que qualquer republicano, isso é um argumento especioso, dado que, durante bastante tempo, as primárias republicanas foram disputadas por um elevado número de concorrentes, que entre si foram dividindo os votos. E, já agora, números contra números, as primárias republicanas têm tido uma substancialmente maior participação.

 

Ao contrário do que sucede no campo republicano, no qual, a partir de 15 de Março, a maioria das primárias atribui os delegados ao vencedor na sua totalidade (embora com algumas nuances), entre os democratas essa atribuição é sempre proporcional. Isso se, por um lado, permitiu a Sanders não ficar irremediavelmente derrotado com as primárias do Sul, torna também agora uma sua eventual recuperação mais difícil, pese embora o terreno a ele essencialmente favorável daqui até ao final.

 

Uma coisa é certa: uma vez que continua a vencer primárias e a angariar fundos, e dado a característica essencialmente ideológica e militante da sua campanha, Bernie Sanders dificilmente deixará de ir até ao fim, na primária do Distrito de Columbia a 14 de Junho. Um esforço meritório, galhardo, mas basicamente pírrico.

 

 

 

Foto: "caucus" democrático em Seattle, Washington

Elaine Thompson/Associated Press

 


24
Mar 16
publicado por Alexandre Burmester, às 17:50link do post | comentar

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As primárias e "caucuses" do dia 22 quase passaram despercebidas, mas não foram assim tão insignificantes, pelo menos em certos aspectos:

 

- pela primeira vez, um candidato republicano teve mais de 50% dos votos: Ted Cruz no Utah, com 69%, seguido de John Kasich com 17% e Donald Trump com 14%. Ao ultrapassar os 50% neste estado, Cruz angariou a totalidade dos respectivos delegados (40).

 

- no Arizona, estado que atribui todos os delegados (58), na primária republicana, ao vencedor, Trump venceu com 47%, para 25% de Cruz e 10% de Kasich. De notar que, dada a votação antecipada que já ocorrera antes da desistência de Marco Rubio, o senador pela Flórida angariou bastantes votos, os quais, contudo, mesmo que transferidos na íntegra para Ted Cruz (um cenário muito pouco plausível), apenas teriam mitigado a sua derrota. As posições anti-imigração de Trump foram decerto bastante populares entre os republicanos do Arizona, um dos estados mais directamente afectados pela imigração clandestina.

 

- entre os democratas, persiste o bom desempenho de Bernie Sanders, que neste dia conseguiu perto de 80% (!) tanto no Idaho como no Utah e 40% no Arizona, ganho por Hillary Clinton. Sanders arrecadou assim, nestes estados, mais delegados que Clinton.

 

No dia 26 há três "caucuses" democráticos mas, depois disso, teremos de esperar por 5 de Abril para a próxima primária, de ambos os partidos, no Wisconsin, onde a corrida republicana parece estar renhida entre Trump e Cruz.

 

Em termos de delegados, a contagem está assim: 

 

Republicanos: Trump 739, Cruz 465, Rubio 166, Kasich 143

Democratas: Clinton 1.690, Sanders 946


21
Mar 16
publicado por Nuno Gouveia, às 21:35link do post | comentar | ver comentários (4)

As primárias republicanas de 2016 podem terminar com uma "convenção contestada", algo que não sucede desde 1976, quando Gerald Ford chegou à convenção de Kansas City sem os delegados necessários para obter a nomeação na primeira votação. No Partido Democrata, a última vez que tal aconteceu foi em 1980, numa disputa ganha pelo Presidente Jimmy Carter contra o senador Ted Kennedy. Se na era moderna da política americana este fenómeno é muito invulgar, até à introdução generalizada das primárias da década de 70, depois da reforma McGovern-Fraser, era mais comum. As lendárias convenções decididas pelos "party bosses" em "smoke-filled room" eram habituais, com as decisões a serem tomadas à porta fechada*. Para tal acontecer este ano, nenhum candidato pode atingir os 1237 delegados, o que é possível, pois ao contrário de outros anos, Donald Trump vai ter oposição até ao final das primárias. Apesar de me parecer que Trump deverá mesmo chegar muito perto desse número, se não o ultrapassar mesmo, este é um cenário em que vários republicanos do movimento #NeverTrump estão a trabalhar para impedir o milionário nova iorquino de se transformar no líder republicano. Se Trump não conseguir obter os 1237 delegados na primeira votação na Convenção de Cleveland, então os seus delegados vão se libertando da obrigação de votarem nele e tudo pode acontecer. Mesmo nomear um candidato que não tenha tido a votos nestas primárias. Improvável mas não impossível. E é nisso que apostam os seus opositores no Partido Republicano. 

Em 1976, o presidente Gerald Ford chegou à convenção à frente mas sem os 1130 delegados necessários para vencer a nomeação à primeira votação. Ronald Reagan, antigo governador da Califórnia, chega a Kansas City com a aspiração de derrotar o Presidente e anuncia que o seu candidato a vice presidente seria o senador da Pensilvânia, Richard Schweiker, para convencer a ala moderada do partido a apoiá-lo. O problema para Reagan foi que os conservadores não gostaram da sua escolha e muitos deles decidiram apoiar Ford, que ganhou a nomeação com 1187 delegados contra os 1070 de Reagan. Depois de perder a votação, Reagan declarou o apoio a Ford, terminando com a frase "There is no substitute for victory, Mr President". Gerald Ford perdeu para Jimmy Carter e passado quatro anos, na convenção de Detroit, tentou negociar a sua entrada no ticket republicano como Vice Presidente de Reagan. O acordo chegou mesmo a estar quase concluído, mas Reagan à última hora optou por George H. Bush. 

1952 foi um ano em grande para as convenções contestadas. No lado do Partido Republicano, Robert Taft e Dwight Eisenhower defrontaram-se na Convenção de Chicago, não para escolher o nomeado republicano, mas sim para escolher o Presidente. Depois de 20 anos de domínio democrata e com a popularidade do Presidente Harry Truman pelas ruas da amargura, era quase certo que o Partido Republicano iria recuperar a Casa Branca. Foi também um confronto entre os centristas e os conservadores, uma réplica da história da década anterior e posterior no GOP. Thomas Dewey, nomeado republicano em 1944 e 1948, optou por não se candidatar, mas conseguiu convencer o herói da II Guerra Mundial, o general Dwight Eisenhower, a candidatar-se pela ala moderada (curiosamente, também tinha sido "namorado" pelo Partido Democrata). Robert Taft, representante da ala conservadora do partido, tentou pela última vez ser o nomeado contra os moderados. Esta foi uma convenção cheia de truques de ambos os lados, com Einsenhower a ganhar na primeira votação com 845 votos contra 280 de Taft. No entanto, no inicio da Convenção o número de delegados era muito equilibrado, mas as manobras na convenção fizeram pender a vitória para o general. Para equilibrar o ticket, o Einsenhower nomeou um jovem senador da Califórnia, Richard Nixon. Também em Chicago, o Partido Democrata reuniu-se para escolher o sucessor de Harry Truman. E foi a última vez que nenhum partido escolheu o seu candidato à primeira. Nas duas primeiras votações, o senador do Tennessee, Estes Kefauver liderou, sem no entanto chegar à maioria dos delegados. Mas o governador do Illinois, Adlai Stevenson, que nem sequer era candidato no inicio da convenção, cedeu aos esforços de alguns party bosses e avançou para a luta pela nomeação. Apesar de destroçado popularmente, o apoio de Harry Truman viria a ser decisivo para a vitória de Adlai Stevenson na terceira votação. Passado quatro anos, voltaria a ser candidato e derrotado nas presidenciais de 1956. 

Muitas mais histórias de ambos os partidos haveria para contar. A mais conhecida do grande público, até pelo excelente livro de Doris Kearns Goodwin, Team Rivals, foi em 1860 na segunda convenção da história do Partido Republicano, quando o desconhecido Abraham Lincoln derrotou os favoritos William H. Seward, Salmon P. Chase e Edward Bates. A mais longa de todas foi no Partido Democrata em 1924, quando foram necessárias 103 votações para escolher John W. Davis, que derrotou o candidato apoiado pelo Ku Klux Klan William G. McAdoo, que chegou a ter 47% dos delegados na 77ª votação. Com uma furiosa oposição do governador de Nova Iorque, o católico Al Smith, Davis acabou por ser o candidato da reconciliação,

 

* Sobre este tópico aconselho o filme "The Best Man", escrito por Gore Vidal e realizado por Franklin Schaffner com Henry Fonda. 


16
Mar 16
publicado por Alexandre Burmester, às 17:17link do post | comentar | ver comentários (2)

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Das cinco primárias ontem disputadas (Florida, Ohio, Carolina do Norte, Illinois e Missouri), Donald Trump venceu quatro. Um "score" assinalável é certo, mas:

 

- No Missouri venceu apenas por 0,2% 

- Na Carolina do Norte venceu apenas por 3,4%

 

Nestes dois estados, segundo as sondagens à boca das urnas, Ted Cruz (segundo em ambos), teria sido o vencedor se Marco Rubio tivesse já saído da corrida (fê-lo ontem á noite). No Missouri ainda não está feita totalmente a atribuição de delegados (alguns estados que atribuem todos os delegados ao vencedor fazem-no círculo a círculo, além de atribuirem delegados a nível estadual, o que significa que um candidato derrotado no estado, caso vença num ou mais círculos, angaria também delegados). A Carolina do Norte atribui-os proporcionalmente, pelo que a diferença de delegados entre Trump e Cruz foi de apenas dois (29-27).

 

- No Ohio, estado que atribui todos os delegados ao vencedor, sem consideração por círculos eleitorais, John Kasich, ao vencer, angariou a totalidade dos 66 delegados do estado.

 

Já na Flórida e no Illinois, o êxito do magnata de Nova Iorque foi assinalável em termos de delegados mas, mais uma vez, e muito principalmente no segundo desses estados, beneficiou da divisão entre os seus adversários (votação no Illinois: Trump 39%, Cruz 30%, Kasich 20%, Rubio 9%).

 

A percentagem média de votos de Trump teve ontem uma boa subida (na Flórida, por exemplo, teve 46% dos votos - Kasich conseguiu 47% no Ohio, já agora). A sua média no total de primárias e "caucuses" já disputados está agora nos 37%. Este número explica também por que motivo Trump continua aquém de um número de delegados que lhe permita desde já cantar vitória, embora, depois de ontem, as suas perspectivas tenham melhorado. De facto, conquistou até agora cerca de 47% dos delegados, precisando, portanto, de conquistar 54% dos ainda por atribuir. Daqui para a frente há terreno que se lhe tem revelado desfavorável e terreno onde tem tido bons resultados. Tudo dependerá também do modo como se articular a oposição a Trump, ou seja, dos votos tácticos e da permanência ou não do Governador do Ohio na corrida.

 

Parece, pois, bastante provável, que Trump chegue à convenção republicana em Cleveland com o maior alfobre de delegados, mas continua a ser incerto que lá chegue com a maioria deles, ocorrendo assim a tão falada "brokered convention". O próprio Trump não parece muito seguro de obter a maioria, pois já recentemente disse que o partido deveria nomear quem tivesse mais delegados e ontem advertiu para o perigo de motins em Cleveland, caso não seja ele o nomeado.

 

Entre os democratas, Hillary Clinton venceu as cinco primárias, embora, tal como no campo republicano, o resultado no Missouri tenha sido muito renhido (os mesmos 0,2% de diferença!), e no Illinois tenha ganho por apenas 2%. Mas depois do "susto" do Michigan, conseguiu evitar semelhante desfecho em estados com semelhanças, como os dois que referi. Bernie Sanders está, claramente, cada vez mais numa luta inglória.

 

Termino com a situação actual em termos de delegados, dos dois lados:

 

Republicanos (1.237 dão maioria): Trump 661, Cruz 406, Rubio 169 (campanha suspensa), Kasich 142

Democratas ( 2.382 dão maioria): Clinton 1599, Sanders 844 

 

 

 


13
Mar 16
publicado por Alexandre Burmester, às 16:49link do post | comentar | ver comentários (1)

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Numa altura em que a actualidade anda a ser dominada pelos confrontos em comícios de Donald Trump, ocorreu-me a maior manifestação de violência política na América do pós-guerra, a Convenção Democrática de 1968, em Chicago.

 

Norman Mailer imortalizaria o episódio no seu livro "Miami and the Siege of Chicago" (em Miami tinha tido lugar a Convenção Republicana, que nomeara Richard Nixon como candidato do GOP).

 

https://www.youtube.com/watch?v=1Iye1NQy1NY

 

 


publicado por Alexandre Burmester, às 15:41link do post | comentar

John Kasich lidera a mais recente sondagem para a primária do Ohio, na terça-feira. Aqui o temos em declarações, hoje, à Fox News.

 

http://video.foxnews.com/v/4798408719001/john-kasich-donald-has-created-a-very-toxic-environment/?intcmp=hpvid1#sp=show-clips


12
Mar 16
publicado por Nuno Gouveia, às 10:00link do post | comentar | ver comentários (9)

Nem estas intervenções, de grande qualidade de Ted Cruz e Marco Rubio, salvam a honra do Partido Republicano. Donald Trump, o provável nomeado do partido, está a levar o partido de Abraham Lincoln e Ronald Reagan para a extrema-direita xenófoba e populista. Será que o GOP tem salvação? Tenho muitas dúvidas. 

 


09
Mar 16
publicado por Alexandre Burmester, às 18:45link do post | comentar

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Algumas notas sobre as primárias de ontem.

 

Para variar, começo pelos democratas, pois foi aqui que se registou a grande surpresa do dia. De facto, Bernie Sanders, contra todas as sondagens e vaticínios, obteve uma das maiores surpresas eleitorais dos últimos anos, ao vencer a primária democrática do Michigan. Foi uma vitória por apenas 1,5% dos votos, é certo, mas todas as sondagens davam a Hillary Clinton vantagens muito folgadas.

 

Como foi esmagadoramente derrotado no Mississippi, o senador pelo Vermont acabou por recolher menos delegados que a sua adversária no dia de ontem. De qualquer modo, terminaram as primárias no "Deep South", terreno que se revelou especialmente favorável à antiga Secretária de Estado. Os olhos estão agora postos noutros grandes estados industriais, semelhantes, portanto, ao Michigan, onde se realizam primárias no próximo dia 15: Illinois e Ohio. Também aqui as sondagens não favorecem Sanders, mas a sua vitória no Michigan poderá dar uma nova dinâmica à sua campanha.

 

Clinton continua a ser, de longe, a favorita, até porque cerca de um terço dos delegados necessários à obtenção de uma maioria na convenção democrática (uns 700) estão na categoria dos chamados "super-delegados", e representam largamente a máquina partidária (o "establishment", para se usar um termo que tem vindo a ser muito aplicado na corrida republicana, bastante mais democrática neste aspecto, já agora). Além disso, tem já uma larga maioria no número de delegados conquistados. Mas, como já anteriormente referi, a permanência de Sanders na campanha representa um incómodo assinalável para Clinton.

 

Entre os republicanos, o fenómeno da divisão dos votos entre vários candidatos continua a favorecer Donald Trump, em termos de vitórias, que não em termos de delegados conquistados (ontem, voltou a angariar menos que a soma dos conquistados pelos seus antagonistas).

 

É certo que, perante os resultados do último sábado, Trump ontem conseguiu estancar uma aparente hemorragia. Venceu o estado mais importante do dia, o Michigan, mas com 37% dos votos, contra 25% e 24%, respectivamente, de Ted Cruz e John Kasich (a disputar, finalmente, terreno mais favorável para si). Juntou-lhe uma vitória no Mississippi e uma no Havai, este último um estado pouco importante em termos de delegados. Ted Cruz ficou em segundo em todos estes três estados e venceu no Idaho.

 

A próxima Terça-Feira apresenta-se, portanto, como um dia crucial para a corrida republicana. Se Marco Rubio e Kasich não vencerem os seus estados de Flórida e Ohio, respectivamente, é difícil ver como poderão manter-se na corrida, especialmente o primeiro, sobre cuja manutenção na corrida até esse dia vêm, inclusivamente, levantando-se dúvidas. E a partir desse dia, inclusive, a maior parte das primárias atribuirão a totalidade dos delegados ao respectivo vencedor.

 

Para terminar: sondagens nacionais dos últimos dias, com confrontos virtuais entre apenas dois dos candidatos republicanos, dão vantagem tanto a Cruz como a Rubio sobre Trump (Kasich não foi considerado). O "establishment" republicano, para grande parte do qual Ted Cruz também era, até há pouco, anátema (mais pelo seu estilo que pelas suas propostas políticas, diga-se), está, lentamente, a tentar acomodar-se à ideia de que Cruz poderá ser o último obstáculo à nomeação de Trump.


06
Mar 16
publicado por Alexandre Burmester, às 22:50link do post | comentar

Sábado 5 de Março pode vir a ficar na História como o dia em que a candidatura de Donald Trump começou a soçobrar. Ou não. 

 

É indesmentível, como ponto de partida desta análise, que a aura de quase invencibilidade do bilionário de Nova Iorque sofreu um golpe neste "Semi-Super Sábado". Com efeito, e com excepção dos "caucuses" de Iowa, foi esta a primeira jornada eleitoral em que Donald Trump não só não venceu mais eleições que os rivais, como até conquistou menos delegados que um deles, e isto em contraste com o que as sondagens faziam prever.

 

Não sou de opinião que as sondagens estivessem todas erradas. Para além das dificuldades técnicas que a realização de sondagens sobre "caucuses" encerram (Maine, Kentucky e Kansas tiveram "caucuses"), parece muito provável que tenha havido flutuações de última hora no eleitorado, já não captadas pelas sondagens. É o caso, principalmente, da Louisiana, onde as últimas sondagens davam uma vantagem de entre 12 e 17 pontos a Trump, mas em que este acabou por vencer por apenas 3,6%. Com efeito, na contagem dos votos antecipados (os daqueles que votaram antes do dia das eleições), Trump tinha uma folgada margem mas, à medida que foi sendo feita a contagem dos votos do próprio dia, Ted Cruz foi-se aproximando, chegando a pôr em risco a vitória de Trump. No Kansas, a última sondagem dava uma margem da ordem dos 6% a Trump, e contudo Cruz venceu por uns avassaladores 25 pontos. No Kentucky houve mais uma disputa renhida, com Trump  a vencer Cruz por pouco mais de 4 pontos, e no Maine, território que parecia favorável a Trump, anterior vencedor das primárias em estados da Nova Inglaterra, e onde, ainda por cima, recebeu o apoio do respectivo governador, Cruz teve uma vitória surpreendente, com 13 pontos de vantagem.

 

A que se ficou a dever esta aparente viragem? O debate de 5ª feira passada deve ter influído, não só no desgaste da imagem de Trump, como na do seu principal atacante dessa noite, Marco Rubio, o qual pode assim ter muito bem cometido um suicídio involuntário, ao mesmo tempo que favoreceu a estratégia anti-Trump do "establishment" do partido (à falta de melhor expressão). Há também a forte possibilidade de muitos eleitores republicanos (e estas quatro eleições foram todas "fechadas", isto é, só de acesso a republicanos, situação em que Trump tem obtido resultados menos bons) estarem a decidir concentrar os votos no candidato que aparece com mais possibilidades de parar Trump, o Senador Cruz.

 

 

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A noite foi, sem dúvida, muito boa para o senador pelo Texas. Mas, exceptuando o Maine, estava em terrenos que, em princípio, lhe eram favoráveis. No dia 8 votam Havai, Idaho, Michigan e Mississippi, um espectro geográfico e demográfico mais diverso. No Michigan haverá também que prestar atenção ao desempenho de John Kasich, pois trata-se de um estado vizinho do Ohio, onde é o governador. Nesse dia poderemos talvez confirmar se as notícias acerca do declínio de Donald Trump eram ou não largamente exageradas, como diria Mark Twain.

 

Uma nota final para as primárias democráticas do mesmo dia 5: duas vitórias folgadas de Bernie Sanders, mais que compensadas por uma, também ela folgada, de Hillary Clinton no mais importante estado da noite, a Louisiana. Nada de novo, portanto, nesse campo. Sanders continuará na corrida, à espera de melhores dias, mas o seu destino está traçado. A sua permanência, contudo, não deixa de ser incómoda para Clinton, obrigando-a a tomar posições à Esquerda que poderão ser-lhe prejudiciais na eleição geral.

 

 


03
Mar 16
publicado por Nuno Gouveia, às 22:37link do post | comentar | ver comentários (7)

 

A nomeação de Donald Trump ainda não é uma realidade, mas depois dos resultados que já obteve e das sondagens conhecidas, é difícil encontrar um cenário em que não seja ele a acumular mais delegados até Junho. Aliás, o cenário de outro candidato atingir os delegados necessários para obter a nomeação antes da convenção é quase impossível. A única forma de impedir Trump de ser o nomeado republicano na Convenção de Cleveland será impedir que ele atinja os 1237 delegados e partir para uma "Brokered Convention". Neste cenário, caso nenhum dos candidatos atinja esses votos na primeira votação, voltaria a repetir-se a votação, mas já sem a obrigação das delegações votarem conforme os resultados eleitorais das primárias. Esse é o cenário mais plausível (e mesmo assim, pouco provável) de derrotar Trump.

 

É com este cenário que começa-se a formar-se um bloco conservador anti-Trump, apelando ao voto nos restantes três candidatos - Marco Rubio, John Kasich e Ted Cruz. Hoje Mitt Romney, anterior nomeado republicano, discursou perante o povo americano (os canais noticiosos cobriram em direto a sua intervenção), fazendo um apelo ao voto nos três candidatos, mediante o estado em disputa. Num emotivo e duro discurso, Romney repetiu alguns argumentos populares na direita americana contra Trump, alertando para os riscos que o movimento conservador americano incorrerá caso Trump seja o nomeado. Romney afirmou que Trump é uma "fraude" que tenta fazer dos americanos parvos e que uma vitória sua colocaria os Estados Unidos em risco, criando uma guerra comercial e fazendo entrar o país em recessão. Não deixou de atacar também o carácter xenófobo e misógino de Trump, dando os exemplos dos ataques aos mexicanos, aos muçulmanos e às mulheres. Romney afirmou mesmo que a integridade e a decência da democracia americana está em causa nestas eleições. Minutos depois, John McCain, nomeado republicano em 2008, disse que concordava com Romney e apelou à derrota de Trump.

 

Vários republicanos já afirmaram em público que nunca irão votar em Trump nas eleições gerais. Alguns eleitos, como o Governador do Massachusetts, Charlie Baker e o Senador do Nebraska, Ben Sasse, diversos congressistas e antigos governadores, como Tom Ridge da Pensilvânia e Christine Todd do New Jersey e algumas personalidades dos media, como Glenn Beck, Bill Kristol, Erick Erickson ou Peter Wehner. E depois da intervenção de Romney, será virtualmente impossível que ele não se junte ao movimento criado nas redes sociais #NeverTrump. Parece-me que esta revolta que temos assistido nas últimas semanas tem tido o efeito de suster o crescimento de Trump. Apesar de tudo, tem tido melhores sondagens do que resultados e na Super Terça-Feira apenas teve 35% dos votos, enquanto as sondagens apontavam para resultados bem melhores. Mas a falta da união na frente anti-Trump tem-lhe permitido ganhar e provavelmente irá continuar a ganhar. Diria que esta revolta devia ter aparecido antes das eleições começarem, pois parece-me que agora é tarde para parar Trump. 

 

O que isto significa para o Partido Republicano? O cenário mais provável neste momento é uma nomeação de Trump, com um clima de guerra civil dentro do partido. Mesmo que muitos dos que se têm oposto publicamente (ou nos bastidores, como o Speaker Paul Ryan e o Líder da Maioria no Senado, Mitch McConnell) acabem por declarar o seu apoio a Trump mais lá para frente, será um partido profundamente dividido que enfrentará Hillary Clinton. Caso venhamos a enfrentar uma "Brokered Convention", os apoiantes de Trump irão criar um clima de guerrilha nas ruas de Cleveland, que já há muitos a recordar os tumultos de 1968 na Convenção Democrata de Detroit. Hillary Clinton tem bons motivos para sorrir perante este caos no Partido Republicano.


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José Gomes André

Investigador de Filosofia Política, redigiu tese de doutoramento sobre James Madison. Autor de "Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: um Roteiro" (Esfera do Caos, 2008). Escreve também no Delito de Opinião.
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Nuno Gouveia

Autor de uma tese de mestrado sobre as eleições presidenciais americanas de 2008. Escreve também no 31 da Armada e Cachimbo de Magritte.
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Alexandre Burmester

Define-se como um "ávido seguidor amador" da política americana, que acompanha há mais de 40 anos. As suas habilitações académicas situam-se na área da Língua e Literatura Inglesas e foi quadro de uma multinacional canadiana
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